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Enxofre

 Eu não preciso de um dia pra lembrar meus mortos. A constância do cheiro de enxofre que nos ronda nesses quase dois anos não me deixa esquecer dos que já se foram, e que ultimamente vão  de uma forma  que a maioria de nós sequer imaginou ser possível um dia. E aqui  ficamos com as perdas, com o hiato, imaginando aquilo que poderia ter sido, mas não será. Perdemos mais, perdemos quase dois anos. A vida suspensa a espera de. De que mesmo? Seguimos anestesiados e o que aflora agora não é um novo mundo de golfinhos em águas cristalinas,  ao contrário, o ódio não é mais latente, é constante e potente. No novo normal a estranheza não é boa. Não somos os mesmos e não somos melhores. O tiro saiu pela culatra. O tiro. Volto aqui comigo e sinto que roubaram algo irrecuperável, mas que mesmo assim todos já se adaptaram. É a vida. Ou foi  o medo da morte? Que ao invés de regenerar recrudesceu o que há de pior em nós? Espero pelo caos. Climatico, social, existêncial....

Ravena Porcelana Azul

 Eu tenho pensando muito no meu pai ultimamente. Nem sei porque ou talvez saiba e não precise dizer. Só sentir. Lembro das nossas conversas infindáveis madrugada adentro. Filosofando sobre a vida, tentando enganar a morte, como ja disse ali, outro dia, noutra esquina. Na real, nunca soube se ele era ateu. Sempre que começavamos a falar do etéreo, descambava para as agruras bem materias que sofrera na época do seminário. Quando ficou mais adoentado, ja no finalzinho da jornada, pedia pra que a gente rezasse, que pedisse a Deus por ele. Isso me surprendia. Só aí tive a dimensão da fragilidade daquele momento. Hoje li que a morte é um mistério que desorganiza e comove. É isso. A pulsação de morte que persiste nesses dias tão desgraçadamente iguais desorganiza e comove. Hoje não há mais a expectativa pela melhora do jovem intubado. O artista. Brilhante. Se foi. Hoje a dor continua em milhares de anônimos. Uma luta desigual, desumana, negligenciada por quem deveria ser o cerne. Eu não,...

Espera, mãe. Espera que chego já!

 O vento trouxe o cheiro do pó de arroz que a minha mãe usava quando eu era bem menor, já que pequena nunca fui, apesar de meu pai sempre me chamar de miúda. Eu lembrei que dias assim, de ceu azul e sol alto, traziam enorme angústia quando ela atravessava o portão e saia. Se abaixava pra me beijar e dizer que já voltava, e deixava comigo só o cheiro do pó de arroz.  Era com esse cheiro que eu a acompanhava entre as grades da janela  até ela sumir no final da rua. Nunca um cheiro representou tanto pra mim a sensação de perda  como o cheiro desse pó de arroz. Custava a me afastar da janela e volta e meia  conferia para ver se já havia um retorno de quem prometera jamais me abandonar. E sim, ela sempre voltava. O cheiro do pó de arroz voltava  primeiro e anunciava a felicidade que viria a seguir.  Agora era o cheiro da felicidade, do reencontro, nao mais da angústia.  Só pra dizer que era preu estar de férias e visitando a minha mãe. O corona não dei...

CIDADÃO DE BEN$

 Hoje é domingo,  dia do cidadão de bens ir à igreja. O cidadão de bens sonega impostos e é a favor da privatização. O cidadão de bens é  meritocrata, acha que conseguiu tudo somente com a ajuda de Deus, talvez porque saiba que não será materialmente contestado. Aliás, o cidadão de bens detesta ser contestado. Tem uma sapiência nata, superior aos anos de estudo dos colegas, ops, cientistas. Tem um ranço escravocrata, mas não é racista. Tem até amigo negro, é assim mesmo, no singular. Gay já é mais complicado. Respeita desde que não mexam com ele, e ignora que a filha é lésbica. Saber, sabe. Se tem uma coisa que o cidadão de bens tem é auto estima. Ou seria complexo de superioridade? O importante é que amam. Amam a esposa e a amante e acham que feminismo é o contrário de machismo. Isso quando se dão ao trabalho de tocar nesses assuntos, tão menores, tão identitários. Afinal, cidadãos de bens têm um país a salvar. Dizem que não  gostam de política, mas possuem uma neut...

Fred, o gato que não era qualquer gato.

 Indiferença, insensibilidade, frieza, diria o senso comum, mas eu achava que era personalidade mesmo. Sempre à espreita, mas nunca ausente. Fred já nasceu criado. Pouco afeito à melações e rabugentinho, chegou com um rabinho cotó que nunca soubemos se era algo congênito ou se o pobre tinha passado maus percalços antes de chegar até nós, sua familia. Éramos sete. O Fred era o gato do vô Arnaldo. Se tinha uma missão na vida, acho que era desemburrar o velho, que ria feito criança com as traquinagens que aprontava com o gato. Depois, feitas as pazes, dormiam os dois largados no sofá cumprindo rigorasamente a sesta abençoada de todos os dias. Há uns oito anos o vô Arnaldo se foi e Fred sentiu o baque. Perdeu o seu companheiro. Aos poucos foi se achegando ao resto da familia, nós. Fred fez 18 anos esse ano, Pedro, meu filho mais velho, 17. Fred cresceu e envelheceu com os meninos. Um senhorzinho procurando aconchego tinha se tornado ultimamente depois que foram canceladas suas voltinha...

Planetinha Azul

Essa pandemia é um sinal mais que evidente que esse Planetinha Azul está saturado. O ar está saturado, a água está saturada, a terra, nós estamos saturados. Gente demais, fazendo coisa de menos para evitar o pior.  Pior, se omitindo,  mentindo, negando. Tô quase começando a achar que a Terra é plana mesmo, de tanta porrada que já levou. E leva. Achatou.  A curva não, essa continua desenfreada. Abalroando em cheio países carentes até de saneamento básico. Água? É ouro. Tem quem paga. Cada vez menos um direito universal. Cada vez menos direitos. À moradia, à saúde, à vida. Roleta russa. Sobrevive mais quem tem mais condições. Quem tem mais condições se acha imune. Purifica seu aquário com Lysoform, assiste Netflix, e faz uma receita nova para ajudar na imunidade. Se, pá, flexibiliza, pega sua prancha de longboard e vai aplaudir o por do sol, de tardinha, na praia de selo internacional.  Luta pelo fim dos canudinhos, pela vida das tartarugas, e denuncia o morador de rua...

Soninha me trouxe palavrinhas.