domingo, 11 de agosto de 2019

Um tangaço para o meu pai!

Quando eu era menor, pequena nunca fui, lembro do meu pai debruçado na vitrola ouvindo ópera, quando não, tango. Mas não era só ouvindo. Ele vivia todas aquelas árias. Uma sofrência só. Isso quando não batucava saleroso os refroes dos tangaços preferidos. Às vezes pegava o violão e me chamava pra ouvir " qué bonitos ojos tienes
debajo de esas dos cejas" e que eu entendia "debajo de sete quedas" e não via sentido algum. Cachoeira? Catataratas?
Lembro também da gente discutindo os editais do Jornal do Brasil madrugada adentro, filosofando sobre a vida, enganando a morte.
Meu pai não era muito de festa. Não dessas tradicionais. A festa era ele mesmo. Onde chegava era um acontecimento. Não nasceu mesmo pra ser plateia. Não que isso fosse sempre um conforto, mas era ele. Meu pai. Com todos os bônus e ônus. Herói possível. Que errava muito, mas acertava também. Dotado de um grau de humanidade que anda nos faltando hoje nesse mundo cada vez mais hostil. Meu Dom Quixote e seus moinhos de vento. Minha Caixa de Pandora, meu enigma da pirâmide. Meu pai que anda comigo na minha boca, nariz, sentimentos e alguma pirraça. Obrigada, pai. Eu sou porque você foi. E é.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Iceberg

 Não é o momento. Muito se tem negado. Não vivido. Não questionado. Amordaçado. Amar. Dura. Me sinto fria, centrada em algo que ainda não sei bem o nome. Não dá tempo. O tempo me consome. Some. Entre brios. Estribilhos de uma música ruim que insiste. O silêncio sobe um tom. O acorde é diferente. Morto. Não reflexivo. Evasivo. Há nuvens num céu de brigadeiros, majores, coronéis,  homens infiéis. Vão-se os dedos, os anéis,  e eu fico  cá, sozinha, entre devaneios escorrendo pelo peito nu. Gelado é o lado de dentro pela indiferença de um amor que demora a queimar. Às vezes eu adjetivo demais porque é de menos a ação. Não era pra ser assim, mas é. O fim.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Mas era.

Que a gente comece a acreditar que depressão é uma doença. Séria. Que não é só uma preguicinha de viver, que não é só "levantar a cabeça e ir à luta", que não é corpo mole, que não é uma gripe. Que não é falta de fé ou de religião alguma. Que não é nenhuma possessão, quebranto, ou seja lá o que você acredita. Porque não é sobre você. É sobre o outro. É entender que estar doente não é escolha do outro. Que, inclusive, devido a doença, o outro está impossibilitado de fazer escolhas. E sofre. Mesmo se um dia resolver sair. Mesmo se der uma gargalhada. Mesmo se parecer bem. Porque depressão não é sobre parecer, não é estigma, não é achismo. Depressão é doença. Precisa ser diagnosticada, tratada, entendida. E pode durar anos, a vida toda, quem sabe, sob controle, mas sempre à espreita. Ainda que não na cara, pra que a gente acredite, seja complacente e aja mais antes de se chocar quando vir pessoas atirando na própria cabeça ou se jogando do nono andar. Porque nem parecia. Mas era.

domingo, 14 de julho de 2019

Morrer de Véspera.

   
  O novo chega cada vez mais depressa. Gatuno, na era pós, quer nos impor sistematicamente a juventude eterna.  Ainda que velho, não pode ser velho, tem que não parecer velho. A longevidade aumentou e a toda hora  velhinhos saltitantes, serelepes, sarados, de bem com a vida, pululam nas telas, nos imaginários. Não se tolera mais a artrite, a enxaqueca, a rabugice e o bolo de fubá. Vivacidade é a palavra do dia, ainda que a lucidez ande com a visão torta. Acompanhada do velho Buk e toda sua preguiça com a humanidade, levanto um brinde aos que seguram esse tranco e não sucumbem à liquidez. Me deixem viver a era onde serei rainha mor do meu não sou obrigada a nada. Onde nenhuma amarra a mais, além das minhas limitações físicas, me prenderá. Quero continuar me enveredando pelos poetas malditos, garimpando Ninas Simone por aí, curtindo fotos com ângulos sensíveis, admirando belezas pintadas há séculos, ou por algum atual desconhecido insistente. Quero continuar falando coisas sem sentido ao mesmo tempo que ainda pensarei ser possível mudar o mundo, ainda que ele já tenha mudado. Pra pior. Quero fazer exercícios sim, talvez um único dia, pra depois não mais. Ah, quero fazer poesia. Muita poesia. Isso pretendo preservar, anotando todos os dias os nomes daqueles que me tiram essa vontade agora. Quero ter memórias e falar sobre elas. Quero dizer que houve um tempo, contar causos, catalogar a vida. Quero ser racional, mas também trazer a dúvida, ponto fora da curva. Quero chuva pra poder chorar, dar piti, falar palavrão, continuar me indignando contra a opressão. Ver o velho, sem Estado, sem tempo pra qualquer reflexão, rir com a boca banguela, e rir de nós mesmos, da nossa divina tragédia humana. Quero  seguir sendo. Para não morrer de véspera.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Toda Maternidade é Um Desafio!

 Eu tive duas gestações bem tranquilas, diga-se de passagem. Nada de dores, inchaços, sobrepeso ou qualquer outra intercorrência costumeira que se possa creditar às gestantes. Duas cesáreas. A primeira tão tranquila que no quinto dia pós cirurgia tinha que me lembrar a todo custo que estava recém operada e não podia me exceder. Em casa, novas experiências. Nunca tinha cuidado de criança alguma, e mais do que instinto materno, tive instinto de sobrevivência pra cuidar de mim e de uma outra vida que se apresentava ali, diante dos meus olhos, em fragilidade e dependência. Com toda a alegria que eu tenho em ser mãe de dois carinhas maravilhosos, devo confessar que nem sempre foi fácil. É tenso, sim, é cansativo, sim, tem horas que dá vontade de sair correndo, sim.  Porque às vezes o leite empedra, o umbigo não cicatriza, o choro vem fácil e o sono fica difícil. Aos poucos, tateando, fui aprendendo a tornar as coisas menos pesadas ou menos angustiantes. Ah, porque sim, às vezes dá uma angústia danada também. Eu pude escolher ser mãe, de dois filhos, na idade que eu quis, com plano de saúde e médica de confiança, com uma certa estrutura que me permitiu um bom puerpério, e ainda assim foi difícil. Sabia que seria assim. Mas decidi, junto com o pai deles com quem sempre pude contar, coisa que muitas mulheres não podem, participar do "evento" que é ter um filho, o que inclui  bônus e ônus. Não sou "mãezinha", " super mãe" ou qualquer outro adjetivo para o endeusamento de um momento que cada uma, de acordo com a sua vivência e contexto, reage de uma forma, e que muitas optam por nem passar. Sou mulher vivendo experiências mil e em franca evolução. A maternidade é uma das minhas vertentes mas não somente o que me define. E se durante a vida toda o que menos precisamos é de julgamento, já que existe uma sociedade dogmática e patriarcal fazendo isso o tempo todo,  não é no período do puerpério que esse julgamento seria necessário. Quem não puder contribuir com algo positivo para o momento, o silêncio já é um presente. A mãe, a criança, e quiçá o mundo, agradecem!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Tengo Ganas de Volar!

     Estava lembrando do meu velho. Se estivesse vivo completaria no dia seis, oitenta e seis anos. Numa ocasião, quando ele já tava bem ruinzinho, internado há mais de quarenta dias, entrou a enfermeira pra fazer aquelas perguntas de praxe. Mulher rude, soberba, sem um pingo de humanidade. Meu pai não gostava dela, exatamente por isso. Quando dizia: "Seu David, me dá o braço preu medir a pressão!" meu pai esticava o braço com a cara virada pro outro lado feito criança empacada, enquanto ela, mais mecânica do que eficiente, continuava seu ritual de todas as manhãs: "Seu David, o que o senhor tá sentindo hoje?", até que meu pai nesse dia, de forma herege quebrando o sagrado daquela rotina infeliz que pouco, ou nada, parecia importar àquela mulher tão jovem e cheia de saúde, respondeu: "O que eu tô sentindo hoje? Vontade de voar! Anota aí na sua pranchetinha: vontade de voar!"
A enfermeira explodiu em um discurso manjado de "estamos aqui para melhor servi-lo" e eu tive que interferir para apaziguar os ânimos. 
Esse era o meu velho que tinha o costume de dizer: " a coisa mais difícil de se lidar é o elemento humano, rapaz!" 
E não é que ele tinha razão?

Dezembro é tempo de saudade...

sábado, 28 de novembro de 2015

Reorganização Escolar. Alunos do Renê Entre A Cruz e a Espada

  Até agora são mais de duzentas escolas ocupadas por alunos contrários a reorganização escolar, no estado de São Paulo. Aqui no Guarujá, existe apenas uma escola ocupada, a Renê Rodrigues de Moraes, onde a previsão é de encerramento das atividades assim que transferirem todos os alunos, e onde eu estive ontem. A noite o número de alunos cai na ocupação, cerca de vinte, mas dependendo do período do dia, pode chegar até mesmo a sessenta alunos. Os pais se revezam no acompanhamento dos filhos, trazem comida, e ajudam a organizar as tarefas. Um ex professor ajuda a manter o clima de calmaria que só é interrompido quando alguém aparece no portão.
 Quando cheguei os alunos tinham acabado de fazer uma oficina de teatro e estavam eufóricos. Aproveitei para conhecer as imponentes dependências da escola e custei a acreditar que um prédio com aquela estrutura, apesar do péssimo estado de conservação, seria em breve desativado. Segundo um aluno, ali funcionam dez classes pela manhã, mais quatro no período da tarde e mais três no período da noite. Calculando a média de trinta alunos por classe são mais de quinhentos alunos que estudam no Renê de Moraes. 

Um pouco mais a frente uma grande reforma, uma obra de acessibilidade, incrivelmente incrustada em uma escola que será desativada (?). Segundo a mãe de um aluno é uma obra requisitada há tempos mas que só agora teve início. Pergunto se ela sabe algo sobre a vinda de uma ETEC (Escola Técnica) já que existe um zum zum zum extra-oficial de que a Prefeitura, numa tentativa desesperada de enxugar os gastos públicos, traria a Etec-Santos Dumont para o prédio do Renê, assim que ele for desativado. Ela me responde que até o momento recebeu apenas a visita de uma supervisora do Etec-Santos Dumont, mas que não há nada ainda oficial. Aliás, a sensação do momento é exatamente essa: incerteza. Tudo é provisório, informal, extra-oficial. Muitas questões e poucas respostas, principalmente dos que deveriam se responsabilizar pela Educação do Estado e do Município, e que tentam a todo custo resolver seus problemas de gestão deixando o ônus para os que deveriam ser os maiores beneficiados, os alunos. 


Nesse caso do Renê, a situação é ainda mais complicada porque estão encurralados entre a política ditatorial do Governo do Estado e a política oportunista eleitoreira do Governo Municipal, que mostra-se parceiro do atabalhoado plano de reorganização escolar do burocrático Secretário de Educação, porque vislumbra na desocupação da escola a chance de resolver seus dois grandes problemas com a Etec que JÁ EXISTE na cidade: o pagamento de aluguel e a falta de verba para a construção de um prédio próprio. Ou seja, bom para o Município, bom para para o Estado, mas e OS ALUNOS? O que querem e pensam os alunos do Renê, das outras escolas que ficarão sobrecarregadas? O que pensam professores, pais de alunos, comunidades? Ninguém foi consultado! Alunos do Renê que estão sendo transferidos para o Domingos de Souza, escola mais próxima, estão sendo retransferidos para o Tancredo Neves. As outras escolas não estão dando conta da demanda. Que relevância tem toda essa insatisfação gerada nesse processo de reorganização escolar imposto sobretudo sob um viés econômico e político e não educacional?

Educação e Saúde são setores fundamentais para um pais que se propõe moderno, que se orgulha de ser a quinta economia do mundo. Se falhamos nessas questões, não importam as graduações, conceitos ou notas que nos dêem no exterior, seremos para sempre subdesenvolvidos. Quem ainda tem essa consciência, volta para casa como eu voltei após ter visitado o Renê, com o gosto amargo da constatação de que a politicagem continua vindo antes, e ameaçando direitos constitucionais essenciais como o direito à Educação. Aos alunos do Renê deixo aqui o meu apoio e admiração. Quando se quer estudar e não há escolas que garantam um ensino de qualidade, ocupar é mais que um direito, é um dever! Avante, meninos e meninas!