sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Toda Maternidade é Um Desafio!

 Eu tive duas gestações bem tranquilas, diga-se de passagem. Nada de dores, inchaços, sobrepeso ou qualquer outra intercorrência costumeira que se possa creditar às gestantes. Duas cesáreas. A primeira tão tranquila que no quinto dia pós cirurgia tinha que me lembrar a todo custo que estava recém operada e não podia me exceder. Em casa, novas experiências. Nunca tinha cuidado de criança alguma, e mais do que instinto materno, tive instinto de sobrevivência pra cuidar de mim e de uma outra vida que se apresentava ali, diante dos meus olhos, em fragilidade e dependência. Com toda a alegria que eu tenho em ser mãe de dois carinhas maravilhosos, devo confessar que nem sempre foi fácil. É tenso, sim, é cansativo, sim, tem horas que dá vontade de sair correndo, sim.  Porque às vezes o leite empedra, o umbigo não cicatriza, o choro vem fácil e o sono fica difícil. Aos poucos, tateando, fui aprendendo a tornar as coisas menos pesadas ou menos angustiantes. Ah, porque sim, às vezes dá uma angústia danada também. Eu pude escolher ser mãe, de dois filhos, na idade que eu quis, com plano de saúde e médica de confiança, com uma certa estrutura que me permitiu um bom puerpério, e ainda assim foi difícil. Sabia que seria assim. Mas decidi, junto com o pai deles com quem sempre pude contar, coisa que muitas mulheres não podem, participar do "evento" que é ter um filho, o que inclui  bônus e ônus. Não sou "mãezinha", " super mãe" ou qualquer outro adjetivo para o endeusamento de um momento que cada uma, de acordo com a sua vivência e contexto, reage de uma forma, e que muitas optam por nem passar. Sou mulher vivendo experiências mil e em franca evolução. A maternidade é uma das minhas vertentes mas não somente o que me define. E se durante a vida toda o que menos precisamos é de julgamento, já que existe uma sociedade dogmática e patriarcal fazendo isso o tempo todo,  não é no período do puerpério que esse julgamento seria necessário. Quem não puder contribuir com algo positivo para o momento, o silêncio já é um presente. A mãe, a criança, e quiçá o mundo, agradecem!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Tengo Ganas de Volar!

     Estava lembrando do meu velho. Se estivesse vivo completaria no dia seis, oitenta e seis anos. Numa ocasião, quando ele já tava bem ruinzinho, internado há mais de quarenta dias, entrou a enfermeira pra fazer aquelas perguntas de praxe. Mulher rude, soberba, sem um pingo de humanidade. Meu pai não gostava dela, exatamente por isso. Quando dizia: "Seu David, me dá o braço preu medir a pressão!" meu pai esticava o braço com a cara virada pro outro lado feito criança empacada, enquanto ela, mais mecânica do que eficiente, continuava seu ritual de todas as manhãs: "Seu David, o que o senhor tá sentindo hoje?", até que meu pai nesse dia, de forma herege quebrando o sagrado daquela rotina infeliz que pouco, ou nada, parecia importar àquela mulher tão jovem e cheia de saúde, respondeu: "O que eu tô sentindo hoje? Vontade de voar! Anota aí na sua pranchetinha: vontade de voar!"
A enfermeira explodiu em um discurso manjado de "estamos aqui para melhor servi-lo" e eu tive que interferir para apaziguar os ânimos. 
Esse era o meu velho que tinha o costume de dizer: " a coisa mais difícil de se lidar é o elemento humano, rapaz!" 
E não é que ele tinha razão?

Dezembro é tempo de saudade...

sábado, 28 de novembro de 2015

Reorganização Escolar. Alunos do Renê Entre A Cruz e a Espada

  Até agora são mais de duzentas escolas ocupadas por alunos contrários a reorganização escolar, no estado de São Paulo. Aqui no Guarujá, existe apenas uma escola ocupada, a Renê Rodrigues de Moraes, onde a previsão é de encerramento das atividades assim que transferirem todos os alunos, e onde eu estive ontem. A noite o número de alunos cai na ocupação, cerca de vinte, mas dependendo do período do dia, pode chegar até mesmo a sessenta alunos. Os pais se revezam no acompanhamento dos filhos, trazem comida, e ajudam a organizar as tarefas. Um ex professor ajuda a manter o clima de calmaria que só é interrompido quando alguém aparece no portão.
 Quando cheguei os alunos tinham acabado de fazer uma oficina de teatro e estavam eufóricos. Aproveitei para conhecer as imponentes dependências da escola e custei a acreditar que um prédio com aquela estrutura, apesar do péssimo estado de conservação, seria em breve desativado. Segundo um aluno, ali funcionam dez classes pela manhã, mais quatro no período da tarde e mais três no período da noite. Calculando a média de trinta alunos por classe são mais de quinhentos alunos que estudam no Renê de Moraes. 

Um pouco mais a frente uma grande reforma, uma obra de acessibilidade, incrivelmente incrustada em uma escola que será desativada (?). Segundo a mãe de um aluno é uma obra requisitada há tempos mas que só agora teve início. Pergunto se ela sabe algo sobre a vinda de uma ETEC (Escola Técnica) já que existe um zum zum zum extra-oficial de que a Prefeitura, numa tentativa desesperada de enxugar os gastos públicos, traria a Etec-Santos Dumont para o prédio do Renê, assim que ele for desativado. Ela me responde que até o momento recebeu apenas a visita de uma supervisora do Etec-Santos Dumont, mas que não há nada ainda oficial. Aliás, a sensação do momento é exatamente essa: incerteza. Tudo é provisório, informal, extra-oficial. Muitas questões e poucas respostas, principalmente dos que deveriam se responsabilizar pela Educação do Estado e do Município, e que tentam a todo custo resolver seus problemas de gestão deixando o ônus para os que deveriam ser os maiores beneficiados, os alunos. 


Nesse caso do Renê, a situação é ainda mais complicada porque estão encurralados entre a política ditatorial do Governo do Estado e a política oportunista eleitoreira do Governo Municipal, que mostra-se parceiro do atabalhoado plano de reorganização escolar do burocrático Secretário de Educação, porque vislumbra na desocupação da escola a chance de resolver seus dois grandes problemas com a Etec que JÁ EXISTE na cidade: o pagamento de aluguel e a falta de verba para a construção de um prédio próprio. Ou seja, bom para o Município, bom para para o Estado, mas e OS ALUNOS? O que querem e pensam os alunos do Renê, das outras escolas que ficarão sobrecarregadas? O que pensam professores, pais de alunos, comunidades? Ninguém foi consultado! Alunos do Renê que estão sendo transferidos para o Domingos de Souza, escola mais próxima, estão sendo retransferidos para o Tancredo Neves. As outras escolas não estão dando conta da demanda. Que relevância tem toda essa insatisfação gerada nesse processo de reorganização escolar imposto sobretudo sob um viés econômico e político e não educacional?

Educação e Saúde são setores fundamentais para um pais que se propõe moderno, que se orgulha de ser a quinta economia do mundo. Se falhamos nessas questões, não importam as graduações, conceitos ou notas que nos dêem no exterior, seremos para sempre subdesenvolvidos. Quem ainda tem essa consciência, volta para casa como eu voltei após ter visitado o Renê, com o gosto amargo da constatação de que a politicagem continua vindo antes, e ameaçando direitos constitucionais essenciais como o direito à Educação. Aos alunos do Renê deixo aqui o meu apoio e admiração. Quando se quer estudar e não há escolas que garantam um ensino de qualidade, ocupar é mais que um direito, é um dever! Avante, meninos e meninas!

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Consciência Negra: Pra Quem e Pra quê?

 Eu "adoro" esse discursinho raso de que "não precisamos de um Dia da Consciência Negra", que cotas é segregação e blablablá. Mais um pouco e imagino o sujeito de mãozinhas dadas com os amiguinhos saindo pelas ruas e cantando Imagine, do John Lennon. Mas, sinto informar, a vida é real e de viés. Hoje, mais de um século após a abolição da escravidão ainda temos uma sociedade eivada de preconceitos, de racistas cada vez mais radicais que se orgulham de ver explodindo um sentimento de ódio que sempre esteve latente nas veias da sociedade.

 É o negro que mais sofre as agruras sociais, é o que primeiro corre quando a polícia chega porque se ficar é o primeiro que cai. É a mulher negra que é sempre a mais estigmatizada, a mais sexualizada, a que menos inspira credibilidade ou confiança. São os negros, ainda, que ocupam os piores empregos, ganham os piores salários e tem menos oportunidades porque sempre, durante a vida toda, esbarram no "problema" da cor da pele. Não podemos "segregar com cotas ou dia especiais" mas podemos segregar nas favelas, nas comunidades. Sejam lindos e livres, negros...mas no lugar de vocês! 

Quantos negros há nas universidades, ainda que sejam a maioria da população? Quantos na escola do seu filho? No cursinho de inglês? Na balada da modinha? Na academia? Na sua empresa? Quantos? Mas, ok. Você está em paz, afinal é contra a segregação, "tem até amigos negros" ou " sabe que tem negro que é ainda mais racista do que branco". Isso alivia e lava a sua alma branca. Impoluta. "Se há um mundo injusto lá fora não fui eu quem construí."

Vamos instituir então o dia da PAZ DA CONSCIÊNCIA BRANCA. Que tal? Ao menos assim, quiçá nos outros 364 dias você possa sair da zona de conforto de quem vive cercado de privilégios apenas por pertencer a determinada raça, a determinada classe, e a determinado gênero, para se colocar no lugar de quem sempre foi inferiorizado, marginalizado, calado, castrado, e possa fazer algo realmente mais efetivo para equilibrar o mundo que a gente vive, que é só um pouquinho maior do que esse seu aquário. Vai refletir, vai! Entendeu agora pra que "serve" o dia da Consciência Negra?


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Eu Passarinho...

O que liberta também é prisão.
A mão que afaga é o ego da corrente 
Se não raro, raso, mergulho profundo.
Demente.
Descrente.
Desatino.
Cretino.
Falo é nada. Só observo e faço poemas. 

Como quem quer viver,
Desanuvio.



                                                                  

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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Fora de Órbita

O silêncio é ouro.
A palavra é prata.
Bala de prata no desejo que há pouco fervia no ventre.
Estocada, punhalada, fim do mundo.
Saturno perde seus anéis e como ovo choco não mata a fome de quem quer banquete e roer os ossos. O silêncio é ouro.
Veste a hora como ninguém.
Não se impõe.
Apenas chega e se perpetua.
Naturalmente.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Intervenção Cênica Projeto Guarujá En(Cena)

     Quando cheguei à Praça 14 Bis, com o Davi e a Antônia Flor (7 e 4 anos), a intervenção cênica do Projeto Guarujá En(Cena) já estava pra lá da metade. Nem por isso deixei de me encontrar em diversos momentos do que deu pra assistir. No meio do burburinho, logo de cara, nos deparamos com uma noiva vagando. O olhar perdido era bem diferente das capas efusivas da revista Noiva do mês de maio, mas, antes que eu concluísse qualquer raciocínio, passou uma mulher gritando e rasgando a plateia, uma pequena colcha formada pela aglomeração, que ria encabulada, cochichava e disfarçava o incômodo. “Por que essa moça estoura contra os postes os balões que traz amarrados ao corpo? Que sentido há nesse gesto tão insano?” Pois eu, depois de quase tropeçar na realidade de uma melancia destroçada no chão, guardei os meus balões imaginários tantas e tantas vezes estourados contra os postes, e viajei em outros balões que, libertos por tesouras providenciais, perderam-se entre as nuvens. 

 Davi e Antônia Flor mal respiravam. Intimidavam-se menos do que os adultos e deixavam fluir a curiosidade e a espontaneidade dos comentários. Os adultos resistiam. Acompanhavam com displicência esperando alguma identificação que não chegava.É sempre mais confortável rir da loucura quando não nos reconhecemos nela. Enfim, depois de um envolvente número de dança, a intervenção cênica acabou. O fluxo seguiu e a vida voltou ao normal. Pronto! Estávamos todos salvos. Pipoquinha para as crianças e perguntei o que acharam. Antônia disse com a sapiência de uma criança de quatro anos que “ADOROU” e emendou um “não entendi nada!”. Davi perguntou “se a mulher com as bolas amarradas ao corpo era louca e concluiu em seguida que ela era tipo um peixe, uma isca da peça, usada pra chamar a atenção das pessoas.

A tarde terminou deixando a satisfação de saber que no Guarujá existe um movimento teatral capaz de fazer essa mobilização. Para quem perdeu, no próximo final de semana (24/25) tem mais.Na Praça 14 Bis às 16 hs. Assista e tire suas próprias conclusões. Permita-se o incômodo. O que você não pode é ficar imune.