terça-feira, 1 de outubro de 2013

NO OUTUBRO ROSA, A VIDA NO VERMELHO...

Com o  início da campanha internacional Outubro Rosa, que promove a importância da prevenção do câncer de mama, vários posts hoje sinalizavam o evento. Devidamente conscientizada, lá fui eu para uma Unidade Básica de Saúde, no Guarujá, atrás de um dos meus direitos mais primordiais: o direito à saúde.

Na primeira Unidade a reação das atendentes é de desconfiança: “Mamografia?” diz uma das moças depois que ela e a amiga se entreolham. “Sim, como eu faço, é aqui?” insisto e elas me indicam outro endereço, outra Unidade. Lá vou eu. Mais atendentes desconfiadas.  Afinal, o que há de errado com a minha pergunta? A moça do arquivo, apesar de ser a responsável pelo agendamento do retorno das consultas, “não sabe me dizer quanto tempo eu levaria até fazer o exame”. Limita-se a dizer que primeiro tenho que passar por um médico em qualquer Unidade Básica de Saúde. E é só.

Antes de ir embora, vou até uma sala mais a frente e, finalmente, encontro um funcionário atencioso, disposto a falar. Uma das primeiras perguntas é se tenho plano de saúde para que ele possa me indicar “um procedimento mais adequado” porque “você sabe, né?  ESSAS COISAS DO GOVERNO SÃO DEMORADAS E A QUALIDADE É PIOR!”. Digo que fui pelo Outubro Rosa, que achei que tivesse algum mutirão, ou coisa do tipo. Ele diz não saber nada nesse sentido e pede que eu volte no dia seguinte para maiores informações, mas já me adianta que o “processo é complicado”, que terei que passar por um clínico em uma Unidade qualquer, que me encaminhará para um ginecologista, que me fará o pedido do exame. Pergunto quanto tempo eu levaria até fazer o exame e ele, apesar da atenção dispensada, se mostra reticente e assim como os outros funcionários com quem falei anteriormente, não sabe precisar quanto tempo eu levaria.

Agradeço e vou embora pensando na diferença abissal que existe entre as campanhas de conscientização (necessárias, obviamente) e a qualidade do serviço público de saúde prestado, principalmente, às mulheres. De que adianta a conscientização se a mulher não é assistida devidamente quando procura atendimento médico, se tiver que esperar MESES pela MAMOGRAFIA, de acordo com o relato de várias mulheres conhecidas?

Por sua vez, a Secretária de Saúde de Guarujá informa que de janeiro a julho deste ano realizou 4.442 mamografias na cidade, onde foram identificadas 375 alterações, o que não caracteriza o câncer necessariamente. O mais SURPREENDENTE é que como as análises das amostras AINDA ESTÃO EM ESTUDO   (FAVOR NOTAR QUE JÁ ESTAMOS EM OUTUBRO), não há como precisar quais destes são casos confirmados de câncer de mama. Ou seja, muitas dessas mulheres que se CONSCIENTIZARAM E FIZERAM O EXAME, quase três meses depois, AINDA NÃO SABEM SE TÊM CÂNCER OU NÃO. Um absurdo para uma doença onde o tempo é fator fundamental para aumentar as chances de cura.

Depois dessa minha pequena “excursão” em busca de uma MAMOGRAFIA pública, gostaria que o Outubro Rosa pontuasse, para além da conscientização das mulheres em relação à prevenção da  doença, a conscientização de quem tem o DEVER DE CUIDAR DA SAÚDE DAS MULHERES, sobretudo com um atendimento humanizado, com diagnósticos precisos subsidiados por exames de boa qualidade, dentro da urgência que o combate à doença exige, principalmente àquelas que não podem pagar. Política pública só é efetiva quando atende, e bem, a demanda, no mais, é factoide acobertando uma prestação de serviço público medíocre. 

Mais importante do que o rosa nas roupas é a VIDA no vermelho pedindo cuidados e atitudes URGENTES em outubro, novembro, dezembro, durante o ano todo.