sexta-feira, 17 de maio de 2013

Totens de Areia

Uma das primeiras lições que meu saudoso e sapiente pai me ensinou e eu, como aprendiz dedicada, captei rapidamente é: sempre questione as figuras dos mitos, heróis, salvadores da pátria e afins. A fé cega, sob qualquer aspecto, é campo fértil para os mitômanos, criaturas semelhantes a totens feitos de areia, que não resistem a vendavais constantes. Surgem assim, do nada, atendendo ao clamor de uma população vilipendiada, que esperando noite e dia por algo extraordinário que lhe tire do deserto da aflição, apega-se a qualquer miragem que apareça.

Na Câmara  Municipal do Guarujá, o guardião da moralidade e dos bons costumes do momento se apresenta na figura do Presidente  que, num arroubo ético sem precedentes, apropriou-se do título de “o novo caçador de marajás”, e acabou com os super salários de alguns funcionários da Casa. Atitude louvável, sem dúvida, não fosse o fato desses super salários terem sido aprovados pelos vereadores, inclusive por ELE MESMO, no apagar das luzes da legislatura passada. A mesma legislatura aonde ele também, enquanto líder da bancada governista, aprovou um aumento substancial para o Executivo, nesse caso, em ano de eleição, ferindo a Lei Orgânica Municipal. Atitude louvável, não fosse o fato de um Presidente da Câmara demorar TRÊS MESES para perceber um erro tão crasso na folha de pagamento que ELE PRÓPRIO assina. Estaria ele sofrendo da mesma amnésia aguda que acometeu a Prefeita por ocasião da contratação equivocada do marido?!

Paradoxalmente, se por um lado o nosso novo Collor de Melo acena de forma célere com a possibilidade de reorganização e moralização da Casa Legislativa do Guarujá, por outro lado, se mostra reticente quanto à investigação dos contratos atuais da Câmara, alias como deixou bem claro no seu esforço sobre-humano para arquivar o requerimento sobre o assunto, proposto por um vereador, ou quando sepultou qualquer possibilidade de discussão sobre o contrato da Unaerp com a Prefeitura. Seria a Unaerp mais um assunto “blindado” no Legislativo em um gentil acordo de cavalheiros entre a Câmara e o Executivo? Que faxina ética seria essa do Senhor Presidente da Câmara pautada sobre tamanha contrariedade?

Que sejamos mais parcimoniosos em relação à criação dos nossos mitos, heróis ou salvadores da pátria. Até porque não precisamos deles. A História tem demonstrado o quanto são inúteis. Que a descrença e a desilusão generalizada em nossos políticos não ceguem o nosso senso crítico, ao contrário, apure-o. Essa história collorida a gente já conhece e sabe que o final é triste. Se for só mais do mesmo, então que estejamos preparados para dizer NÃO de novo!

domingo, 12 de maio de 2013

"Minha mãe poderia, mas não falhou."


Ontem, enquanto participava de um curso sobre fiscalização do Poder Legislativo, ouvi o cientista político, prof. Humberto Dantas, dizer que no Brasil não existe o fomento, o incentivo às causas sociais dentro dos colégios, assim como na Alemanha. Fiz um retrospecto rápido da minha vida estudantil, procurando algo que pudesse contradizê-lo. Não encontrei nada relevante.  No colégio em que eu estudava, o trinômio de valores mais recorrentes eram os valores da mensalidade do colégio, do Country Club e da Cultura Inglesa.  

Mas se no colégio as causas não vieram da forma devida, em casa elas chegaram cedo.

Ela me apresentou  a Leonardo Boff, Dom Pedro Casaldaliga,  Paulo Evaristo Arns e ao Movimento Teologia da Libertação.  Aprendi que dentro da Igreja, havia coisas mais dolorosas do que se ajoelhar no momento da consagração.

Ela me mostrou que nem só de foundie e arremedo dos Alpes Suíços vive uma cidade, e fundou o primeiro partido político de esquerda, em um dos lugares mais elitistas da Região Serrana do Rio, numa época em que “ser de esquerda” era sinônimo de “gente estranha vestida de vermelho, comendo suflê de criancinha”.

Ela me trouxe a ONG Ser Mulher e me explicou que nem só de bombons e flores vivia o amor.   Que muitas mulheres sofriam com seus parceiros sob opressão, submissão, terror psicológico, violência física e que nada, nada disso, tinha a ver com amor.  

Com ela também aprendi noções de cidadania, do quanto é importante participar da vida política da cidade,  iterar-se,  comprometer-se com a causa certa, assim como ela se comprometia participando do Conselho Municipal de Saúde e da Rádio Comunitária, coisas que obviamente, ela com a sua consciência social aguçada também ajudou a criar, fundar, fortificar e frutificar.

Hoje, o que trago comigo são as lembranças da nossa participação (minha e do meu irmão) em todos esses processos pelos quais ela, a minha mãe, passou. Sempre fazia questão de nos participar o que estava acontecendo, quando não tinha a oportunidade de nos levar às reuniões e manifestações onde aprendíamos sobre diversidade, tolerância, ideais, objetivos e bem comum. Questões como: O que?, como?, onde? e por quê? sempre foram constantes nas nossas conversas em casa, enriquecendo a nossa formação, desenvolvendo o nosso senso crítico e apurando a nossa personalidade.

Sem dúvida, o colégio não tinha a obrigação de incutir valores na educação das crianças, mas poderia ter optado por fazê-lo de uma maneira mais efetiva, menos curricular, assim como fez a minha mãe que apesar de também não ter a obrigação, fez a escolha certa. Hoje, eu e meu irmão, com a convicção de que ela não falhou no seu propósito de formar cidadãos mais conscientes, agradecemos realizados. 

Beijo mãe, chego já!