sábado, 31 de dezembro de 2011

Desconstruindo "Verdades Absolutas" em 2012!"

Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é acionado, nem chega com hora marcada. Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável. Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "dois em um": duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável. Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto. Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.
John Lennon



Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será 

domingo, 25 de dezembro de 2011

"É NATAL, MAS NÃO PRECISA SER ÓBVIO!" Tirinhas/ Peanuts- O Verdadeiro Sentido do Natal

Apesar das tirinhas do Sr Schulz terem completado recentemente sessenta anos, ainda trazem o frescor e a originalidade do humor refinado. E, se é para tentar fugir da obviedade, ele, "Charlie Brown", não poderia faltar aqui nesse Natal. Vale a pena registrar que, em 1969, ia ao ar o primeiro especial  para TV da série Peanuts: "O Natal de Charlie Brown", assistido por 55 milhões de pessoas.


(Clique na imagem para ampliar)


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

É NATAL, MAS NÃO PRECISA SER ÓBVIO! Receita/ Prato Principal (por Luciana Nepomuceno)


Apesar de ter tido alguns probleminhas técnicos e estar atrasada com as publicações da série: "É Natal, mas não precisa ser óbvio", não poderia, de maneira alguma, esquecer de postar um dos primeiros textos que me veio à mente, assim que pensei em fazer um "Natal original". É uma receita que, independente do prato, deve ser usada sem parcimônia. Receita que só ela, Luciana, escreveria com tanta propriedade... 


Prato Principal
Em maio deste ano escrevi um texto para o Feministas na Cozinha chamado Ora, direis, comer estrelas... escrevi, curti, esqueci. Até que. Dessas coisas boas que me acontecem, tem a Clara. E ela postou este texto lá no Fb e eu fui reler. E fiquei pensando, sim, sim e, um tantinho não, não. Quem quiser saber como ele era, vai lá e espia, aliás, tem muita coisa boa escrita pelas outras blogueiras, dicas e receitas. Dei uma garibada nele, virou resto d’ontê. Porque o pensar, como o amar, muda. 

Amar é um tantinho como cozinhar. Muitas vezes parece difícil, complicado, demorado e é tão fácil. Pratos com aparência sofisticada que nos custaram um forno amigo, uma taça de vinho pra acompanhar a espera e uma mesa bem arrumada. Às vezes amar é só um cafuné, um telefonema inesperado, um gesto cuidadoso. Peixe? Sal, azeite e fogo. Não tem erro. Massa? Manjericão e tomate. Mas daí a gente pensa: manjo! E, claro, é um erro enorme. Fica até mais bonito em  inglês, como aqueles filmes de final infeliz: terrible mistake, até parece uma sobremesa, né? É que amar também sabe ser difícil. Amar e ser amado são da ordem de uma pergunta e de uma falta e o que temos a oferecer é justamente o que não possuímos. Mas insistimos. Difícil como fazer pão. Tem que ter paciência e saber que tem uma hora, um processo, que não depende de nós, que é lá com ele e sua vida íntima. E que não é garantido. Mais ainda, é preciso saber que, ainda que tudo dê certo, pão pronto e saboroso, nossa fome não finda nele. A de momento, talvez, mas ela se renova.

 Amar é como cozinhar, ainda, porque se precisa dos ingredientes certos. Mas o certo não é, necessariamente, o óbvio. Alguém diz: ingredientes frescos! e logo penso em juventude e a pergunta: só os jovens amam? Porque é o que parece em tantas revistas e filmes mainstream, todos com a viçosa pele esticada e nenhuma bagagem. Mas aí eu lembro do queijo, do vinho, da carne de sol, tantos que são mais saborosos e intensos depois que o tempo faz sua parte. Amar é também para os que já tiveram seu sabor modificado pelos anos, pelas perdas, pelos sustos, pelos anseios, pelos medos, sim e pelas alegrias, pelas conquistas, pelo gozo, pelo suave apreciar do tempo passando ou pela ansiosa pressa de chegar antes dele. Bom, os ingredientes têm que combinar, outro insiste e eu concordo. Mas combinar é o quê? Sal com sal? Mas e o porco com abacaxi? O salmão com maracujá? O mais gostoso não é justamente quando a boca se surpreende num sem saber de gostos? Eu acho. Por isso gosto tanto de beijar. E comer. Por causa do inesperado.

E, tem, claro, a constatação que, nos dois casos, cozinhar e amar, insistimos nas receitas, mas suspeitamos, bem  lá no fundo, que isso é mesmo: mão. E seguimos na peleja: atenção, cuidado, autonomia, desejo, momentos a dois, momentos cada qual no seu cada qual e uma lista interminável de duas xícaras disso e três colheres daquilo. E, às vezes, a comida está feita, receita seguida, tudo no lugar…e tão sem gosto! Outra hora é o excesso que faz o particular: pimenta demais, sal de menos, cozido demais, ficou pouco tempo no forno e tá duro e, ainda assim, com todos os poréns, dá água na boca e sacia.

Isso de se cozinhar é preciso ter vontade, como amar. E aceitar as limitações. E improvisar o omelete quando não há nada em casa a não ser temperos, ovo e um restinho de queijo. No amor, como na cozinha, os sentidos fazem a festa e é isso de ver-se e cheirar-se e lamber-se e saber a textura. Na cozinha, como no amor, o feito na hora tem vantagens, mas descobrir aquele bilhete, opa, aquele pedaço de torta na geladeira, meio esquecido atrás da garrafa d’água quando se está com desejo de doce, ai ai, é de deixar a perna meio bamba e acelerar o coração.

Resumindo, o resultado do amar é um monte de alteração no metabolismo, tal qual o resultado de cozinhar. E nisso de estrela, cerveja, suspiros e perguntas – em forma delirante como “ai, quando, quando e quando” daí a um o apressado come cru, (como minha avó alertava), mas eu gosto de sushi, retruco eu mesma – nisso de estrelas e fome e lembranças do que ainda nem sei se será, veio-me Adélia e é a receita que tenho a partilhar hoje:

"Alimento da fome que desejo perpétua
Jonathan é minha comida"

"É NATAL, MAS NÃO PRECISA SER ÓBVIO!" Literatura de Cordel/ Feliz Natal

Nesse post, a força da tradição, a literatura de Cordel, aliada a "ferramenta dos tempos modernos", a internet. O resultado não poderia ter sido melhor.
















terça-feira, 20 de dezembro de 2011

"É NATAL, MAS NÃO PRECISA SER ÓBVIO!" Cartões/ Por Raquel Stanick

Quando penso em originalidade, é difícil não pensar em Raquel Stanick. São quase sinônimos. Raquel é artista plástica, blogueira e, acima de tudo, mulher. Intensa, autêntica, visceral. Fico admirando, através dos seus escritos, a sua coragem diante da vida. Parece que seu único medo é "não viver". O resto, acertando ou errando, sorrindo ou chorando, ela enfrenta. Chama o mundo para cima do ringue e dá mesmo a "cara prá bater." Por isso, aprendi a admirá-la tanto. Por isso, a minha grande comoção (e não estou exagerando) quando sábado, ao "abrir meu computador", me deparei com esses dois lindos cartões,  que ela fez para mim. Talvez ela não saiba, mas sempre gostei de receber cartões. Desde a época em que eles eram escritos manualmente e enviados pelo Correio. Esperava ansiosa e sempre me emocionava com o carinho de quem os mandava. Hoje, os tempos mudaram. A amiga é virtual , os cartões são virtuais, mas a felicidade de recebê-los foi a mesma de sempre e bem real. Obrigada Raquel!  "Espero um dia, quem sabe, tê-la em abraços e sorrisos!" (como diz a sábia !)


"Que  2012 seja um ano em que todos nós encontremos mais da poesia que se esconde no cotidiano"


"Que 2012 seja um ano de deixar os medos para trás...e encarar a vida como a aventura que ela é!" (ou vice versa)

domingo, 18 de dezembro de 2011

É NATAL, MAS NÃO PRECISA SER ÓBVIO!" Como seria o nascimento de Jesus na era digital?


 O post de hoje é um vídeo, que mostra como seria o nascimento de Jesus em "tempos virtuais". Não é inédito mas é muito original. Passeou com generosidade pela internet no final do ano passado, se tornando um "viral"(  vídeo repetido à exaustão). Mesmo assim, vale a pena assistir de novo pela criatividade. 

sábado, 17 de dezembro de 2011

"É NATAL, MAS NÃO PRECISA SER ÓBVIO!"

Depois de tantos séculos comemorando a data, fico me perguntando o que ainda falta falar sobre o Natal. Acho que nada mesmo. O tema é "batido", desgastado e, até piegas como disse um amigo. Mas, justamente por isso, me propus um desafio: fazer dez postagens sobre o Natal, que tenham um enfoque original, que fujam do lugar-comum. Procurei por textos, fotos, charges, vídeos, enfim, tudo que possa ajudar a "oxigenar" a data. O mais curioso é que, na minha primeira busca, (comecei pelas crônicas) encontrei esse texto do Veríssimo que expõe exatamente essa dificuldade em buscar originalidade num tema tantas vezes antes visitado.    
Não sei se conseguirei cumprir o meu desafio de forma satisfatória, mas que Luis Fernando Veríssimo, com maestria, deu um drible na mesmice quando escreveu essa crônica, não há dúvidas. 


NATAL (Por Luis Fernando Veríssimo)

Natal é uma época difícil para cronistas. Eles não podem ignorar a data e 
ao mesmo tempo não há mais maneiras originais de tratar do assunto. 
Os cronistas, principalmente os que estão no métier há tanto tempo, que 
ainda usam a palavra métier – já fizeram tudo que havia para fazer com o 
Natal. Já recontaram a história do nascimento de Jesus de todas as formas: 
versão moderna (Maria tem o bebê numa fila do SUS), versão coloquial ("Pô, 
cara, aí Herodes radicalizou e mandou apagá as pinta recém-nascida, baita 
mauca"), versão socialmente relevante (os três reis magos são detidos pela 
polícia a caminho da manjedoura, mas só o negro precisa explicar o que tem 
no saco) versão on-line (jotace@salvad.com.bel conta sua vida num chat sitc), 
etc. 


Papai Noel, então, nem se fala. Eu mesmo já escrevi a história do casal 
moderno que flagra o Papai Noel deixando presentes sob a árvore de Natal, 
corre com o Papai Noel e não conta nada da sua visita para o filho porque 
querem criá-lo sem qualquer tipo de superstição várias vezes. 
Poucos cronistas estão inocentes de inventar cartas fictícias com pedidos 
para o Papai Noel: patéticas (paz para o mundo, bom senso para os 
governantes), políticas ("Só mais um mandato e eu juro que acerto, ass. 
Fernando") ou práticas ("Algo novo para escrever sobre o Natal, por amor de 
Deus!"). 


Já fomos sentimentais, já fomos amargos, já fomos sarcásticos e 
blasfemos, já fomos simples, já fomos pretensiosos – não há mais nada a 
escrever sobre o Natal! Espera um pouquinho. Tive uma idéia. Uma reunião de 
noéis! Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel. Acho que sai alguma coisa. 
Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos... onde? Na mesa 
de um bar? Papai Noel não freqüenta bares para não dar mau exemplo. Pelo 
menos não com a roupa de trabalho. No Pólo Norte? Noel Coward, 
acostumado com o inverno de Londres, talvez agüentasse, mas Noel Rosa 
congelaria. Não interessa onde é o encontro. Uma das primeiras lições da 
crônica é: não especifica. Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos 
em algum lugar. Os três conversam. 


Noel Rosa – Ahm... Sim... Hmm... 
Noel Rosa diz o quê? 
Noel Rosa – E então? 
Noel Coward e Papai Noel se entreolham. Papai Noel cofia a barba. 
Ninguém sabe, exatamente, o que é "cofiar", mas é o que Papai Noel faz, 
enquanto Noel Coward olha em volta com evidente desgosto por estar em 
algum lugar. Preferia estar em outro. A todas essas eu penso em alguma coisa 
para eles dizerem. 
Noel Roas (tentando de novo) – E aí? 
Papai Noel – Aqui, na luta. 
Noel Coward – What? 
Esquece. Não há mais nada a escrever sobre o Natal. 
Salvo isto, se dão vênia: que seu Natal em nada lembre o da Chechênia. 



Que suas meias se encham de metais vis desde que não sejam guaranis. 
Que sob a árvore enfeitada o grande embrulho com seu nome seja... 
Meu Deus, a Paola pelada! 
Que em nenhum momento do rebu alguém faça piada com o tamanho do 
peru. 
Que em alegre bimbalhada os sinos anunciem ao mundo que está saindo 
a rabanada. 
E cantem os anjos, a capela que o Cristo vai nascer assim que acabar a 
novela. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER/ POST DE HOJE: "VIM TIRAR ALGUMA COISA BOA DO QUE ME FEZ TÃO MAL" (POR LOLA ARONOVICH)

     O post de hoje, dia 25 de Novembro, dia Internacional de Combate a Violência Contra à Mulher foi um dos primeiros posts que eu li no blog da Lola,: "Escreva Lola Escreva". Foi um post que me marcou bastante porque como disse a Rita Medeiros nesse post aqui, quando você não vive essa realidade, ela fica meio esquecida. Foi nessa época que comecei a enxergar melhor o quanto uma sociedade machista pode ser nociva, deixando traumas difíceis de serem resgatados como o dessa moça "Ana". Um relato forte, comovente, onde ela mostra que o terror psicológico é sempre o grande aliado do agressor para submeter a sua vítima e mantê-la sob total domínio.


“VIM TIRAR ALGUMA COISA BOA DO QUE ME FEZ TÃO MAL”

A Ana me enviou um email que começa assim: “Eu tenho dezoito anos e não sou um trote, nem uma brincadeira de mau gosto de alguém. Não escrevo super bem nem busco comoção das pessoas. Eu só tenho uma história triste que eu sei que acontece com muita gente que não tem coragem de contar, na verdade normalmente nem eu tenho. Mas ler ascoisas que você escreve tão abertamente me deu vontade de dizer o que eu vivi, na esperança sincera de que isso possa ajudar alguém. De verdade, Lola, eu só peço que acredite em mim, porque muita gente não o fez quando eu precisei”. 
Não vou nem comentar agora, talvez num outro post, apenas que acredito piamente no que a Anaconta. Eu ia cortar algumas frases, como aquelas em que Ana se dirige a mim, mas decidi deixar exatamente como está, sem mudar uma vírgula (e ela diz que não escreve super bem!). Fiquem com seu relato:

Quando eu tinha treze anos, eu conheci um cara. Ele era bonito, charmoso, elegante, sabia conversar, e tinha 21 anos. Eu era boba, ingênua, apaixonada, e logo comecei a namorar com ele ― o que teria sido um namorinho idiota que qualquer garota de treze anos tem e acha que é coisa séria, se ele não fosse quem é. Eu mal o conhecia, e hoje vejo quanta burrice eu cometi... Mas na época, eu não via isso. Meus pais sempre trabalharam o dia inteiro, e eu chegava da escola e ele vinha me buscar, a gente saía por aí... No começo, a gente só passeava de mãos dadas e eu me sentia a maior por ter um namorado. Depoisele começou a me levar em barzinhos, me incentivava a beber. Eu não gostava, mas bebia. Tudo pra agradar meu namorado, certo? E quando eu dizia que não queria fazer alguma coisa que ele queria, ele ficava meio bravo, mas eu acho que não percebia, ou não entendia muito bem. O caso é que eu tinha treze anos, e meninas de treze anos cansam das coisas muito facilmente, principalmente quando começam a achar que sair pra beber numa quarta à tarde com um cara que não conhecem muito bem é errado. E um dia, eu saí com umas amigas, e já estava meio cansada... acabei ficando com um menino. Fiquei morrendo de remorso. Quando eu lembro hoje, é até engraçado o quanto eu me remoí de remorso. Resolvi contar pra ele. Afinal, ele era meu namorado lindo e compreensivo, e ia entender, e a gente terminaria mas pelo menos seríamos amigos, quem sabe? Fiz a besteira de contar. Foi o primeiro dia que ele me bateu, Lola. Foi um tapa na cara no meio da rua, e as pessoas podem achar que foi só um tapa na cara, nada demais. Mas não deixo ninguém encostar na minha cara até hoje, nem de brincadeira, por causa disso. Eu lembro que caí no chão do lado de um poste e uma senhora veio me ajudar a levantar, olhando feio pra ele. E eu odiei essa senhora com todas as minhas forças e chorei de vergonha. Queria que ela sumisse e não me visse nunca mais. Não queria que ninguém me visse. Eu mandei ela embora. Não me lembro muito bem, mas eu acho que ela me olhou com pena. No dia, me parecia nojo.
Não sei bem porquê, não entendo até hoje minhas reações quanto a esse assunto, mas aquele tapa mudou minha cabeça. O jeito que ele me bateu enfiou na minha cabeça que ele tinha total domínio sobre mim e que eu seria a pior pessoa do mundo se não o obedecesse. Por isso, no dia seguinte, ele apareceu pra me buscar e eu saí com ele como se nada tivesse acontecido. Mas tinha acontecido, e ele não me deixou esquecer. A gente foi pra um bar e ― me desculpa, mas não tem outra forma de dizer isso ― ele colocava minha mão sobre o órgão dele o tempo inteiro por debaixo da mesa, e segurava ela lá, e eu me sentia horrorizada mas não fazia nada. E quando a gente saiu de lá, ele me levou pra um beco e me socou na barriga porque "eu estava paquerando o garçom".
Tá, não vou te contar sobre cada dia, Lola, apesar de que me lembro de todos eles. O caso é que eu comecei a beber de verdade e a fumar todo tipo de coisa, com treze anos, porque tinha dia que eu não conseguia levantar da cama de tanta resignação. Acho que o pior era isso, a repressão; eu achava que não havia outra saída, eu só podia me conformar, era a minha sina. Eu comecei a mentir pros meus pais ― um hábito que eu nunca tive ― e a comprar maquiagem pra esconder os hematomas. Eu disse até que fui atropelada uma vez, pra minha mãe, pra explicar porque eu não tava conseguindo andar direito. Eu desejava que ele morresse e me culpava por isso, e cheguei a achar que merecia apanhar por desejar uma coisa tão horrenda. Eu aprendi a apanhar em silêncio porque ele se empolgava se eu começava a chorar... Me acostumei a vomitar todo dia quando chegava em casa. Não sei porquê, mas era uma reação automática. Eu vomitava e isso fazia com que fosse mais fácil fingir que estava tudo bem. Meus pais me enfiaram numa psicóloga ― eu estava emagrecendo, e me isolando, e indo mal na escola, tudo que nunca tinha acontecido ― e eu mentia pra ela também. Eu não tinha ninguém, Lola, porque eu não quis ter. Na verdade, eu acreditava sinceramente que era pra ser assim. Ele me fez acreditar nisso. Ele me tratava como lixo, cuspia em mim, pisava no meu rosto. É incrível, eu vejo hoje como isso mudou a minha vida.
Isso não durou muito tempo, por mais que pareça uma eternidade. Quatro meses se passaram nessa mesma ladainha. Até que um dia ele me deu um chute na bexiga tão forte que ― você não sabe como é difícil dizer isso ― eu urinei em mim mesma. E ele riu. Ele nunca tinha rido de mim, e por mais que eu pudesse ver que ele gostava de me bater, isso nunca tinha ficado tão evidente. Não sei porque especificamente isso me fez cair a ficha ― o caso é que eu percebi, ainda que por um momento, que ele que era o bosta da história, ele que era um lixo. E no dia seguinte ele passou na minha casa e eu não desci. Eu fiquei olhando do meu apartamento enquanto ele sentava na praça que fica na frente da minha casa e cruzava os braços com uma cara de que ia me bater muito por não ter descido, no dia seguinte. Mas no dia seguinte eu também não desci. E no outro também não. Eu estava impressionada por saber que era possível não obedecer a ele, Lola, porque essa tinha se tornado a minha realidade. Eu estava abismada comigo mesma. E o tempo passou, cada dia meu medo dele aumentava, mas minha coragem de me proteger aumentava também.
Queria que minha história acabasse aqui, mas ele não desistiu de mim por muito tempo. Eu acho que ele me seguia sempre que podia ― teve vezes que eu estava andando por algum lugar e ele simplesmente cruzava comigo na rua e me deixava aterrorizada, me dizia que eu estava sendo uma péssima namorada e me dava no mínimo um puxão de cabelo pra lembrar quem manda. E eu não me recuperei totalmente, também. Eu continuei bebendo e fumando, e eu tinha crises de pânico em que parecia que ele ia entrar pela porta a qualquer momento, em que eu passava a noite inteira vomitando como se ele tivesse acabado de me dar um soco. Com o tempo, ele aparecia cada vez menos, mas eu continuava na mesma. Não conseguia ― e, pra falar a verdade, até hoje não consigo ― superar e esquecer e me convencer de que ele não podia mais me machucar. Eu estou resumindo a história, Lola, porque ela dura por mais cinco anos ― até hoje. Eu namorei mais algumas vezes, e todos os namoros acabaram pelo mesmo motivo. Passei esses últimos cinco anos oscilando entre o bem estar e o fundo do poço. O bem estar era quando eu acordava e dizia que ia parar com todos os meus vícios e ia superar tudo e tudo ia dar certo. O fundo do poço vinha quando eu não conseguia e acabava na mesma... Eu acho que não conseguia pensar claramente sobre isso ― guardei tudo num canto da minha cabeça que ignorava na maior parte do tempo ― porque o medo dele aparecer e me machucar não sumia nunca. Eu abria a janela do meu quarto todo dia com medo de ele estar ali, porque tinha vezes ― por mais que demorasse meses às vezes ― que ele estava mesmo lá. Tentei contar pra alguns amigos, uns acreditaram, outros acharam que eu estava inventando histórias. Alguns queriam que eu chamasse a polícia. Isso nunca me pareceu uma opção.
Bom, hoje eu tenho dezoito anos e moro sozinha. Mudei de cidade, larguei dos meus pais. Sinto uma falta imensa deles que me deixa na cama por horas seguidas, às vezes. Mas eu quase não volto, quase não vou visitá-los... porque deixar a minha cidade significou deixaro medo, e a ausência dele me dá um alívio tão imenso que nunca vou conseguir explicar pra ninguém... Estou reconstruindo a minha vida, e até agora tem dado certo. Parei de vomitar esse ano, parei de ter crises. Agora, eu consigo acessar as lembranças, por mais que sejam horríveis, e lidar com elas. Não fujo mais, e isso tem me ajudado, ainda que muito devagar. Há um ano atrás, eu nunca teria sido capaz de contar essa história, ainda que resumida desse jeito, Lola. Mas esses dias eu percebi como tudo teria sido diferente se eu tivesse simplesmente conversado com os meus pais. Meus pais são maravilhosos. Eu não queria machucá-los, porque só de imaginar a dor da minha mãe em descobrir o que eu sofri já me dá arrepios. Mas hoje eu sei que a distância que eu imponho entre nós causa uma dor constante, que supera a primeira. Tudo teria sido melhor se eu tivesse falado com eles, eu tenho certeza.
É, me desculpa ter escrito tudo isso, eu tentei resumir bastante, omiti tudo que eu podia.É que meu recado só faz sentido se eu conseguir mostrar pras pessoas como uma coisa dessas influencia a vida de alguém em todos os sentidos ― família, saúde, vida social, futuro. Não consegui me livrar de muitos vícios ainda, mas estou evoluindo como nunca evoluí. Eu acho que estou no caminho certo ― não vim aqui pedir ajuda, porque talvez só eu possa me ajudar mesmo, do jeito que eu me tornei introspectiva nesses cinco anos. Eu vim aqui tentar ajudar e tirar alguma coisa boa do que me fez tão mal. Vim aqui dizer a todas as mulheres que têm qualquer tipo de homem assim na vida, que não tenham medo de dizer, que não tenham vergonha, que saiam gritando se for preciso, que façam qualquer coisa pra que fiquem seguras. Que pensem no futuro, porque o futuro que eu tive não é o que nenhuma delas merece. Por favor, que vão à polícia. Que se protejam, se salvem, se cuidem; conservem sua sanidade. Porque a partir do momento em que se perde a autonomia da pr
(Lola)
ópria mente, se perde tudo. É só isso.
Obrigada Lola, pelo que quer que você for fazer com isso. Eu acho que, de todos os blogs que eu li procurando alguém pra mandar isso, você foi o único que me passou a idéia que eu queria ― que você vai fazer alguma coisa de útil com essa informação, e que vai fazer eu me sentir mais tranquila, e que vai ser mais fácil seguir com a minha vida. Obrigada.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER/ POST DE HOJE: "FEMINISMO É ESSA IDEIA RADICAL DE QUE MULHER TAMBÉM É GENTE!" (POR LUCIANA NEPOMUCENO)

 O post de hoje do ativismo online pelo #FimDaViolênciaContraMulher, é da Luciana Nepomuceno, do blog Borboletas Nos Olhos e, na verdade, é um post "dois em um" (sempre intensa como só ela sabe ser). Esse texto que posto aqui hoje, é uma adaptação desse aqui, que ela fez para o Blogueiras Feministas. Desde já, recomendo a leitura dos dois. Luciana é uma das pessoas mais conscientes que eu conheço quando o assunto é  "violência contra a mulher". Sabe exatamente a  necessidade e a  urgência que o tema implica, por ser (pelo menos, deveria ser) uma preocupação de todos nós, independente de gênero, raça ou classe social. Vamos ao texto:

ESSA IDEIA RADICAL

Estamos nos 5 dias de Ativismo Online pelo #FimDaViolênciaContraMulher e eu quero começar dizendo que sim, esse papo é com você. Não importa se você não é machista, violento/a, preconceituoso/a que está à parte do problema. A violência contra a mulher tem várias nuances e uma das mais cruéis é, na minha opinião, a naturalização desse fenômeno, seja em sua vertente explícita: quando os sinais de maus-tratos são evidentes e as pessoas desviam a vista e fecham as janelas pra não ouvir o barulho; seja na vertente sutil de diminuir, depreciar ou estigmatizar comportamentos, sentimentos e vivências relacionadas às mulheres.

A violência de gênero parece estar profundamente entrelaçada ao preconceito que se manifesta desde a forma como se lida com estupros, diferenças entre salários, jornada dupla para a mulher como nas aparentemente inofensivas piadas sexistas, nas situações de educação/lazer diferente para meninos e meninas, nas regras de comportamento sexual, etc.

preconceito contra a mulher – face evidente da estrutura que legitima a violência – constitui-se de elementos cognitivos, afetivos e comportamentais. Começa com o pensamento circular e autorreferente de atribuição de atributos negativos a determinados grupos sociais - no caso, as mulheres – criando a ilusão de dependência, ignorância e objetificação da mulher. Esse tipo de pensamento é sustentado por um concomitante traço afetivo que associa, aos atributos negativos, avaliações e sentimentos negativos em relação ao grupo discriminado. A soma dos elementos cognitivos e afetivos subsidiam as práticas hostis e/ou persecutórias aos membros do grupo alvo do preconceito. Ou seja, sair xingando e apontando o dedo na cara (comportamento hostil) de uma mulher com quem se teve um acidente de trânsito, por exemplo, pode ter sido deflagrado pela naturalização do pensamento preconceituoso(mulher dirige mal) aliada ao sentimento negativo (não confio em mulher na direção, se ela estivesse em casa pilotando o fogão – ou seja, se comportando - essa vaca não causava problemas).
Os processos de socialização primária (família) e de socialização secundária (escola, principalmente) reforçam este tipo de construção simbólica sobre a mulher acentuando aspectos de fragilidade, incompetência e dependência, travestidos de sinais de cuidado e proteção. As ações violentas são legitimadas e potencializadas pelos processos de socialização que reificam as mulheres tais como os padrões moralistas de comportamento sexual, os valores ligados à aparência física, as demandas de posturas submissas, as exigências de convergirem com modelos de "boa mãe", "boa esposa", "boa amiga"...
Tal construção social não é dissociada da estrutura social de divisão do trabalho e incentivo ao consumo. Se um homem acredita que a mulher é um objeto para sua satisfação, uma coisinha a lhe dar prazer - seja estético, sexual ou conforto no lar - ele sente que ela lhe pertence, não vai sentir empatia, mas senso de propriedade e, na lógica capitalista de que um bem seu é seu para dispor como quiser, o comportamento violento emerge sem nenhuma censura. A violência contra a mulher permanecerá enquanto a sociedade mantiver a idéia de mulher como acessório, complemento, incompleta sem um homem que a mantenha.
Então, penso, não se pode fechar os olhos e fazer de conta que não é com a gente. Ser contra violência contra a mulher é bem mais que não levantar a mão para esmurrá-la, mas estar atento ao discurso e lutar, dia após dia, contra o sistema que nos escraviza a todos, dando-nos um lugar na estrutura que esvazia nossa humanidade e nos reifica.
(Luciana Nepomuceno)


terça-feira, 22 de novembro de 2011

FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER/ POST DE HOJE: "ISSO NÃO É UM CONVITE PARA ME ESTUPRAR!" ( POR RENATA LIMA)

 
O post de hoje do ativismo online pelo #FimDaViolênciaContraMulher é de Renata Lima. Ela escreveu esse post para o site do Blogueiras Feministas, e eu achei muito interessante o seu relato como delegada, do atendimento de dois casos de mulheres vítimas de estupro. Um crime tão bárbaro onde, a mulher  além de ser a vítima, carrega consigo o estigma de ter sido também a provocadora do crime. Como se o fato de usar roupas curtas, dançar sensualmente ou até mesmo estar bêbada, abrisse algum precedente para que sejamos estupradas. Vamos ao texto, porque a Renata pode falar com mais propriedade do que eu:

O título desse post é a tradução do site: “This is not na invitation to rape me“. Encontrei-o no começo do ano passado, quando fiz o atendimento de um caso de estupro. Foi uma peleja, foi atípico e foi o clássico “date rape” mas, não temos essa figura e o sujeito poderia ficar impune se não fosse o trabalho de interpretação e de hermenêutica que fizemos para demonstrar que a violência psicológica também é violência, conforme prevê a lei Maria da Penha.

Isso não é um convite para me estuprar. Crédito da Imagem: This is Not An Invitation to Rape Me - Campaign Pack. Clique na imagem para conhecer melhor a campanha.
Quase um ano depois do fato, consultei o site do Tribunal e vejo que o Ministério Público ofereceu denúncia e ela foi recebida.  A jovem vítima deste crápula, eu espero que fique bem, que a catarse de haver ido até o final a ajude a se recuperar. O mesmo não posso dizer de outra vítima, esta no começo deste ano. Registramos a ocorrência, mas depois a atendente me disse que o companheiro da vítima estava do lado e o tempo todo ficava culpando… um doce para quem acertar… isso mesmo! O “companheiro” culpava a vítima. Que saiu de casa após brigar com ele e havia bebido. Logo, à noite, se foi presa fácil de um predador, de quem é a culpa??? Lógico que não é do animal irracional que tenta estuprar uma mulher semi-desacordada, mas da própria mulher.
A gente lê sobre isso, escreve sobre isso, vive essas situações. Mas o mais triste é que enquanto por uma vítima eu consegui fazer alguma coisa, a parte que me cabia, pela outra não consegui sequer convencê-la de que não, ela não é “estuprável” por haver se excedido na bebida, brigado com o companheiro e saído para a rua, em um horário tardio, para tentar espairecer.
Vão me dizer que se fosse um homem aconteceria a mesma coisa. Sim, a mesma coisa. Antes de tentar estuprá-la, o agressor a derrubou e roubou o dinheiro que estava com a vítima. Em seguida, decidiu tirar as roupas da mulher, e, no meio da rua, descer as próprias calças, em busca de penetração e da satisfação de seu senso distorcido de prazer. Prazer que não é necessariamente sexual. É um prazer que em geral decorre da sensação de poder, de se impor sobre a vítima. Pouco provável que um assaltante fosse tentar estuprar um homem semiconsciente, da mesma forma que tentou estuprar uma mulher. (salvo se o homem semiconsciente for um homossexual ou uma travesti, e isso for de conhecimento do agressor, muito comum ocorrer!)
Agora, me pergunto: o que faz com que alguns homens, desde jovens, tenham a capacidade de considerar as mulheres como presas? Como objetos ao seu dispor, especialmente quando vulneráveis, fragilizadas? Vemos depoimentos de jovens e, mesmo os que buscam outras possibilidades de vivência, sem as limitações do machismo, confessam que muitas vezes reincidem em brincadeiras ou comentários que não escondem o conteúdo misógino, homofóbico e preconceituoso. (...)

E, entre todas as formas de preconceito contra mulheres, as mais ofensivas são as que fazem piada com assunto sério.
Estupro é assunto sério.
Assassinato é assunto sério.
A gente pode brincar com o sexo (deve! Sexo é lúdico, é prazer, é alegria, ou deve ser.)
A gente pode brincar com a morte? Sim, A morte faz parte da vida, fazer piadas com a morte é uma tentativa de negar sua existência? Pode ser.
Mas piadas e gags com assuntos como estupro, que tem uma das maiores taxas de subnotificação entre todos os crimes, a maior entre os crimes graves, é como negar a gravidade do fato, a gravidade do trauma, é legitimar a conduta do agressor, do predador, e objetificar, de novo, a vítima. Fazendo-a, de novo, vítima.
Não, o fato de eu ser mulher não é um convite ao estupro.
Não, o fato de eu te beijar ou algo mais, não é um convite ao estupro.
Não, o fato de eu beber não é um convite ao estupro.
Está na hora de parar, não está?
(Renata Lima)
(Leia o post na íntegra, aqui)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER/ ATIVISMO ONLINE/ POST DE HOJE: "MULHERES QUEREM RESPEITO" POR (LILIANE GUSMÃO)

     Hoje, começa os cinco dias de ativismo online pelo #FimDaViolênciaContraMulher. Durante esse período, o tema estará presente em vários blogs, redes sociais, sites, sempre no intuito de despertar a atenção das pessoas para um problema grave, sério e que pede urgência no seu combate. Os dados são preocupantes, só no primeiro semestre desse ano, por exemplo, o número 180, disponibilizado pela Secretaria de Políticas para Mulheres para atender especificamente à mulher, contabilizou mais de 30.000 chamadas denunciando algum tipo de violência contra a mulher. Na maioria dos casos, (72%) os agressores são os próprios cônjuges. E mais, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), uma em cada três mulheres sofrerá algum tipo de violência ou abuso durante a sua vida.
     Eu, preocupada com essa verdadeira "epidemia" que se transformou esse tipo de violência mais especificamente, resolvi participar dos cinco dias de ativismo online, convidando algumas mulheres especiais para que escrevessem posts sobre o tema. São mulheres que, cada uma a seu modo, no seu dia a dia, estão engajadas nessa causa, que não é só da mulher, mas sim, de todos nós, cidadãos de bem que ansiamos por uma sociedade mais justa e igualitária.
Hoje, o post de abertura, é de Liliane Gusmão do blog  http://pontodeblog.blogspot.com/. Vamos a leitura:


MULHERES QUEREM RESPEITO
 
Ser contra violência contra mulheres é ser feminista. Não sabia disso até pouco tempo atrás, se soubesse já tinha me assumido feminista antes, muito antes. Algumas pessoas falam que são contra todo tipo de violência e por isso acham que feminismo é uma coisa ultrapassada que não tem o menor sentido. Violência urbana e violência contra a mulher são coisas diferentes.

No Brasil e em vários outros lugares do mundo qualquer um pode estar mais ou menos exposto à violência. Segundo a ONU, a violência contra mulheres é endêmica na América Latina. No Brasil a cada 5 minutos uma  mulher sofre algum tipo de violência e 10 mulheres morrem por dia em decorrência dessa violência.

Mulheres são abusadas por parentes, maridos, namorados, companheiros. Na maioria dos casos de violência contra mulher o abusador é um conhecido, intimo da mulher. Isso ainda acontece no Brasil e no mundo por que mulheres são vistas como propriedade masculina. Homens que pensam que podem dispor dos corpos das mulheres ao seu bel prazer.O machismo é o causador de tudo isso. O machismo é a estrutura do modelo de sociedade em que vivemos.


Não só existem homens machistas. Machistas somos todos, quando julgamos uma vítima de estupro pela roupa que vestia quando aconteceu o abuso. Machistas somos quando falamos que aquela nossa amiga/ parente/ colega de trabalho que apanha do marido, gosta de apanhar e é por isso que "não larga dele". Machistas somos quando xingamos uma mulher  com palavras pejorativas que aludam ao seu comportamento sexual. Machistas somos sempre e é preciso muito esforço e reflexão para não sermos, para não repetirmos os padrões de comportamento machistas que a sociedade em que vivemos e estamos inseridos nos ensina.

A primeira vez que vi uma mulher sofrendo violência física foi chocante. Ser testemunha de um ato tão vil em um local público me abalou tanto que mesmo após a cena de violência ter acabado, eu nem conseguia ficar lá, o ar estava pesado e eu só conseguia pensar nela. Eu ouvia seus gritos ainda.
Era 1998 no Abril Pro Rock. Fomos naquele dia assistir o Mestre Ambrósio que ia fechar a noite e o Festival. Chegamos muito cedo e ficamos entediados com algumas apresentações que vieram antes da que queríamos  assistir. Encontramos uma amiga e ficamos conversando, pra passar o tempo, longe do palco e do público que animado pulava cantando.
Foi quando, do meio da multidão, surgiu um homem puxando uma mulher. Ela gritava, as amigas dela, impotentes, gritavam também enquanto ele a puxava pelos cabelos e socava seu rosto e sua barriga. Todo mundo parou para olhar, mas ninguém se mexia, todo mundo meio sem ação frente aquela cena absurda. Eu parei a minha conversa no meio e sem pensar comecei a procurar pelos seguranças do local correndo e gritando que tinha uma garota sendo agredida. Finalmente eu encontrei alguns seguranças que imediatamente foram intervir. A garota devia ter uns 20 anos e quando a reencontrei ela estava no chão encolhida, enquanto ele  gritava e a chutava, toda vez que ela se mexia.
Ninguém se meteu, se não fosse eu, ninguém teria feito nada, não sei o que seria dela. Me arrependi de não ter ido tentar apartar, mas tive medo dele. Ele era um cara grande e forte. As amigas dela não conseguiram contê-lo e eu também, não conseguiria. Não sei o que aconteceu com ela. Sei que ele foi levado pelos seguranças e que as amigas dela a levaram embora. Não soube mais dela, não consegui ficar mais naquele lugar e a minha noite acabou ali.

Quantas outras mulheres sofrem diariamente com homens que as destratam, as agridem verbal, física e psicologicamente? Quantas mulheres ficam com esses homens por que não tem para onde ir, nem com quem contar? Quantas mulheres saem de uma casa onde sofriam violência só para viverem com um agressor tão ruim ou pior do que aquele de quem elas fugiram? Quantas ainda sofrem em silêncio a humilhação de serem espancadas, ameaçadas e violadas por homens que deviam respeitá-las, e só não o fazem por elas serem mulheres...
(Liliane Gusmão)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"DON DAVID"


No próximo dia 06 de Dezembro, se meu pai estivesse vivo, completaria oitenta e dois anos. Há dez ele me deixou. "Partiu dessa para uma melhor", "fez a passagem", "foi para o céu", "para uma outra dimensão", "virou poeira cósmica", sei lá eu...
     Fato é que, não estamos preparados para esse momento. Mesmo no caso do meu pai que já vinha doente há algum tempo, foi difícil aceitar que não o veria nunca mais. Não, não acho que quando a pessoa está doente a gente já espera a morte como desfecho, ao contrário, já estava tão "acostumada" a vê-lo doente, que uma hora cheguei mesmo a acreditar que ele fosse viver assim por anos a fio. Mas assim é a morte: num dia você está, no outro, já não está mais e fim... finito, vazio, oco, sem eco, seco...
     O mais cruel da morte  é que tudo continua igualzinho ao que estava ontem. Nada deixa de acontecer porque você perdeu alguém que lhe era muito querido. Só você está de luto. Os ônibus começaram a rodar às cinco. A padaria abriu às seis e as crianças estão indo para a escola às sete. E o "seu mundo" caindo, o chão lhe faltando.
     A primeira dor é a dor do inconformismo. Geralmente acontece na hora e se prolonga por dois, três dias ou até uma semana. Depois, vem uma aparente resignação e uma vontade enorme de que tudo volte a uma certa normalidade. Você precisa se "organizar" para saber como será sua vida dali em diante sem aquela pessoa. Pelo menos, comigo, foi assim.Tive uma pressa enorme de rearrumar a casa da minha mãe, numa tentativa desesperada de que todas as coisas se acomodassem, inclusive os sentimentos, da  forma mais rápida possível. Mas, de nada adiantou  porque o tempo vai passando e aí chega uma outra dor, que eu considero a pior: a dor da constatação. É aquela que eu costumo chamar de "dor fininha", danada, que fica ali remoendo como se fosse aquele barulhinho ininterrupto e irritante que você escuta quando está em silêncio absoluto. É nessa hora que "a ficha cai" e você entende a exata dimensão do quer dizer "nunca mais". Não há mais esperas. Ninguém vai entrar por aquela porta voltando de viagem, voltando do hospital, simplesmente não há mais volta. Só partida.
     Depois, com o tempo, a sensação de perda se ameniza, mas sempre contrabalançando com picos cruciais, como por exemplo, as datas especiais. "O primeiro sem" é sempre um problema: o primeiro Natal sem, o primeiro aniversário sem, o primeiro Dia dos Pais sem, ainda que você faça de tudo para não se lembrar, pode ter certeza de que alguém se lembrará  e não por maldade. É inevitável.
 
 Por fim, essa dor, aos poucos, vai sendo substituída por uma enorme saudade e  muitas lembranças. É o que fica. Dentre tantas lembranças que trago do meu pai, gosto de duas coisas que  fizemos há uns seis meses antes dele falecer, quando ele ainda tinha um restinho de saúde.

A primeira foi uma poda de árvore que eu, imbuída do espírito de cooperação, resolvi fazer sob o  seu olhar de reprovação. Era nítida a insatisfação dele com o jeito que eu tinha escolhido para fazer aquilo. Tanto é que, assim que eu larguei o facão, ele assumiu o serviço satisfeito por poder me mostrar o modo correto, não se importando com a fragilidade de sua saúde. E, a segunda foi a montagem de um guarda roupas no meu quarto onde, aí sim, fizemos efetivamente juntos, deixando para trás tantas coisas mais complexas que já tínhamos tentado fazer juntos e que não tínhamos conseguido. Sei que são lembranças tolas talvez, mas de grande significado para mim, por ilustrar tão bem o que foi a nossa convivência durante anos, apesar de amá-lo incondicionalmente.

Hoje, sinto que ele está mais presente do que eu possa imaginar. Faz parte do que eu sou, do que eu penso, do que eu sinto. Vivo não só por mim, mas por ele também. É como se, com a sua morte, eu tivesse absorvido um pouco do que lhe ia na alma, da sua essência, do seu vigor. Não é raro me escutar falando como ele, ou fazendo algum trejeito que ele fazia ou ainda, tomando uma boa taça de vinho só para me lembrar que era a única bebida que ele tomava, assim mesmo só em ocasiões especiais, como no seu aniversário, por exemplo. Essa música é meu presente para nós dois, pai! Pelos "velhos tempos", quando eu ainda "pitica" te via na sala debruçado na vitrola (sim, ainda existia) viajando sabe-se lá por qual mundo. À nossa!!        


sábado, 5 de novembro de 2011

"RAPIDINHAS DO PEDRINHO"

     ""CRI, CRI, CRI..."
   
 Estava tomando café da manhã com os meninos, quando Davi começou a falar sobre a professora dele, a "Tia Carminha". Dentro de uma perspectiva de tornar nosso desayuno mais animadinho, comecei então, a imitar a fala angelical dela (se existir mesmo um céu, tenho certeza de que é para lá que ela vai). Pedro, com seu olhar crítico, aguçado para um menino de oito anos, só me observava. De repente...
     - "Cri,cri, cri... ", disse o Pedro dissimulado.
     -O que é isso, Pedro? Perguntei e pensei: "Lá vem!"
     -Ah, nada não, mãe! É só uma coisa que a gente faz lá na classe quando alguém conta uma piada sem graça!


(E NO RODAPÉ...)

A ÚLTIMA DO DAVI...
   
     "-Mãe, compra um filme de terror para mim?"
      -Você vai ficar com medo, Davi!
      -Não, mãe! Não vou ficar com medo não!
      -Tem certeza? Ah, mas acho que EU vou ficar com medo, então!
      -Não, mãe! Você também não vai ficar com medo, não...
      ..."VOCÊ VAI FICAR FAZENDO PIPOCA!"

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"POEMINHA DESAJEITADO E PONTO. (PORQUE FEMINISTA NÃO É O CONTRÁRIO DE MACHISTA)

Meu amigo Zatônio, publicou o seguinte post http://www.interrogaes.com/2011/10/poeminha-desajeitado-e-machista.html . Eu disse que teria "revide". Ei-lo...rsrs

"Eu preciso de um amor
que aja mais,
que me motive mais,
que seja menos pão-duro,
que não tenha TPE (tensão pós expediente) 
não me dê náuseas,
não venha com sogra,
me faça "perder a cabeça",
não faça coleção de carrões e mulheres
e não crie aquele barrigão de chopp.
Ah, e que adore ter relação em vez de ficar discutindo "mesa redonda" como se estivesse lá.
E não,
Não vou...à merda!


(PORQUE O IMPORTANTE É RIR, MEU AMIGO! BEIJO ZATÔNIO!)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"NUNCA TIVE UMA BARBIE"

     A minha infância foi muito rica. De criatividade, de produtividade. Eu e meu irmão, que é um pouco mais velho do que eu, brincávamos sempre juntos. Aliás, fazíamos tudo juntos: passeios, viagens, colégio, amigos em comum e, quando a "jiripoca piava", piava para os dois com a mesma intensidade. Nunca houve qualquer  distinção no modo como fomos criados. Nunca fui "proibida" de fazer qualquer coisa pelo fato de ser uma menina. Nunca fui "forçada" a ter uma "postura condizente com a minha condição de ser do sexo feminino".

Minha mãe não era daquelas mães que já saíam correndo da sala de parto rumo à farmácia para furar a orelha da filha. Fato que só aconteceu há alguns anos, porque EU quis.

Quanto ao meu pai, tivemos vários conflitos, mas nenhum deles por ele ser sexista. Ao contrário. Acredito que os conflitos existiam justamente pela liberdade que ele me dava em contradizê-lo, em contestá-lo. E, quando éramos pequenos, se tem uma imagem que até hoje é nítida nas minhas lembranças, é a dele dizendo com seu sotaque espanhol carregado: "Quando eu faltar, será sempre um pelo outro! Sempre um pelo outro..." virava-se para o meu irmão e continuava: "...você por ela..."  virava-se para mim e concluía: "...e ela por você!" E assim tem sido até os dias de hoje.
   
Os nossos brinquedos refletiam muito essa ideologia dos meus pais. Geralmente eram brinquedos de uso comum. Muitos jogos, instrumentos musicais, (é, até que eles se esforçaram, mas a única coisa que toco hoje é o gato para fora de casa) bicicletas, bolas de futebol, vôlei, basquete...é claro que meu irmão tinha seus carrinhos e eu tinha minhas bonecas, mas compartilhávamos tudo. Não existia "brinquedo proibido". E depois, minhas bonecas até que tinham uma "certa personalidade". Me lembro de uma "bebezona preta" que fiz a minha mãe comprar no mercado e andava com ela o tempo todo debaixo do braço. Ai de quem mexesse nela!!
 
 Livros também foram constantes na minha infância, graças a um ritual que a minha mãe, com a sua sagacidade (viu, Ricardo! É genético) introduziu na nossa rotina para que  adquiríssemos o gosto pela leitura. Todas as vezes que as notas eram boas, já sabíamos: lanchinho num lugar bacana (não, "aquela lanchonete" nem existia na minha cidade, na época. Mesmo que existisse, desconfio muito que iríamos para lá) e depois, "feirinha de livros" para que cada um escolhesse o seu preferido. Nossa! A estante lá de casa era cheia de títulos: "O Menino do Dedo Verde", "João Sem Medo", "Se Será Serafina", A Bruxinha que era Boa", "A Árvore Generosa", "O Mistério do Cinco Estrelas", "O Rapto do Garoto de Ouro"... UFA! Ah, e muitas, muitas revistinhas!
 
  Enfim, nunca tive uma Barbie, nem uma Susie. Muito menos meu irmão teve um Autorama ou um Falcon (Pois é, amigo! O futuro chegou!) Simplesmente  meus pais não concebiam a idéia de que brinquedos tão sem possibilidades fizessem parte do nosso dia a dia só porque o apelo televisivo era grande. Não queriam atrelar a nossa felicidade, a nossa completude infantil ao fato de termos "tais brinquedos da moda". E quer saber? ELES ESTAVAM CERTÍSSIMOS! Não tivemos e não fizeram falta nenhuma. Só tenho a agradecê-los. Se nos dias de hoje,  eu conseguir proporcionar aos meus filhos apenas a metade do que eles me proporcionaram, já terá valido a pena. Oxalá que eu consiga!

DIA 13 DE OUTUBRO, TEM BLOGAGEM COLETIVA NO BLOGUEIRAS FEMINISTAS.  Quando estava acabando de escrever o meu post, li o excelente post da Débora, que também participa da blogagem coletiva. Ia postar aqui apenas um trechinho para que ficasse como um "convite" à leitura dos outros posts lá no Blogueiras no dia 13, mas como ela diz muita coisa que vai ao encontro do que eu acredito, e do que eu tinha acabado de escrever, achei melhor colocar o link para que quem quiser conferir o post todo: DO ALTO DO SALTO