sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"DON DAVID"


No próximo dia 06 de Dezembro, se meu pai estivesse vivo, completaria oitenta e dois anos. Há dez ele me deixou. "Partiu dessa para uma melhor", "fez a passagem", "foi para o céu", "para uma outra dimensão", "virou poeira cósmica", sei lá eu...
     Fato é que, não estamos preparados para esse momento. Mesmo no caso do meu pai que já vinha doente há algum tempo, foi difícil aceitar que não o veria nunca mais. Não, não acho que quando a pessoa está doente a gente já espera a morte como desfecho, ao contrário, já estava tão "acostumada" a vê-lo doente, que uma hora cheguei mesmo a acreditar que ele fosse viver assim por anos a fio. Mas assim é a morte: num dia você está, no outro, já não está mais e fim... finito, vazio, oco, sem eco, seco...
     O mais cruel da morte  é que tudo continua igualzinho ao que estava ontem. Nada deixa de acontecer porque você perdeu alguém que lhe era muito querido. Só você está de luto. Os ônibus começaram a rodar às cinco. A padaria abriu às seis e as crianças estão indo para a escola às sete. E o "seu mundo" caindo, o chão lhe faltando.
     A primeira dor é a dor do inconformismo. Geralmente acontece na hora e se prolonga por dois, três dias ou até uma semana. Depois, vem uma aparente resignação e uma vontade enorme de que tudo volte a uma certa normalidade. Você precisa se "organizar" para saber como será sua vida dali em diante sem aquela pessoa. Pelo menos, comigo, foi assim.Tive uma pressa enorme de rearrumar a casa da minha mãe, numa tentativa desesperada de que todas as coisas se acomodassem, inclusive os sentimentos, da  forma mais rápida possível. Mas, de nada adiantou  porque o tempo vai passando e aí chega uma outra dor, que eu considero a pior: a dor da constatação. É aquela que eu costumo chamar de "dor fininha", danada, que fica ali remoendo como se fosse aquele barulhinho ininterrupto e irritante que você escuta quando está em silêncio absoluto. É nessa hora que "a ficha cai" e você entende a exata dimensão do quer dizer "nunca mais". Não há mais esperas. Ninguém vai entrar por aquela porta voltando de viagem, voltando do hospital, simplesmente não há mais volta. Só partida.
     Depois, com o tempo, a sensação de perda se ameniza, mas sempre contrabalançando com picos cruciais, como por exemplo, as datas especiais. "O primeiro sem" é sempre um problema: o primeiro Natal sem, o primeiro aniversário sem, o primeiro Dia dos Pais sem, ainda que você faça de tudo para não se lembrar, pode ter certeza de que alguém se lembrará  e não por maldade. É inevitável.
 
 Por fim, essa dor, aos poucos, vai sendo substituída por uma enorme saudade e  muitas lembranças. É o que fica. Dentre tantas lembranças que trago do meu pai, gosto de duas coisas que  fizemos há uns seis meses antes dele falecer, quando ele ainda tinha um restinho de saúde.

A primeira foi uma poda de árvore que eu, imbuída do espírito de cooperação, resolvi fazer sob o  seu olhar de reprovação. Era nítida a insatisfação dele com o jeito que eu tinha escolhido para fazer aquilo. Tanto é que, assim que eu larguei o facão, ele assumiu o serviço satisfeito por poder me mostrar o modo correto, não se importando com a fragilidade de sua saúde. E, a segunda foi a montagem de um guarda roupas no meu quarto onde, aí sim, fizemos efetivamente juntos, deixando para trás tantas coisas mais complexas que já tínhamos tentado fazer juntos e que não tínhamos conseguido. Sei que são lembranças tolas talvez, mas de grande significado para mim, por ilustrar tão bem o que foi a nossa convivência durante anos, apesar de amá-lo incondicionalmente.

Hoje, sinto que ele está mais presente do que eu possa imaginar. Faz parte do que eu sou, do que eu penso, do que eu sinto. Vivo não só por mim, mas por ele também. É como se, com a sua morte, eu tivesse absorvido um pouco do que lhe ia na alma, da sua essência, do seu vigor. Não é raro me escutar falando como ele, ou fazendo algum trejeito que ele fazia ou ainda, tomando uma boa taça de vinho só para me lembrar que era a única bebida que ele tomava, assim mesmo só em ocasiões especiais, como no seu aniversário, por exemplo. Essa música é meu presente para nós dois, pai! Pelos "velhos tempos", quando eu ainda "pitica" te via na sala debruçado na vitrola (sim, ainda existia) viajando sabe-se lá por qual mundo. À nossa!!        


2 comentários:

  1. Sinto uma coisa parecida, Clara, até porque a saudade tem várias camadas, cada uma com suas peculiaridades. É horrível ver o tempo passar sem a presença de alguém tão querido quanto o pai da gente. É como uma dor - suportável, mas constante - em algum ponto indefinido do nosso tronco. E, passados oito anos da morte do meu pai, já concluí: essa dor não passa, apenas se modifica.
    Um beijo e fique bem.

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  2. "Sabia que não o teria por muito mais tempo, e pensei em dizer alguma coisa. Mas não consegui e ficamos conversando amenidades. Poupamos no essencial..." Muitas vezes me vi nessa situação Paulo...
    Esse foi um dos primeiros posts seus que li e esse trecho me marcou muito.Eu e meu pai, não tínhamos um relacionamento perfeito e nem feito de silêncios como o de vcs, mas sim, de muitas discussões, algumas saudáveis outras nem tanto, mas enfim, era o que tínhamos. Poderia ter sido melhor? Acredito que sim, se tivéssemos deixado nossas intransigências de lado. Como eu costumo dizer, o que ele menos gostava em mim, era a parte onde eu mais me parecia com ele. Ainda assim, foi uma perda enorme e, vc tem razão, o ponto nevrálgico dessa dor é no nosso tronco, na nossa coluna, mexendo com o nosso equilíbrio. Obrigada pela visita, um beijo e ficarei bem sim! Clara

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