quarta-feira, 13 de março de 2013

"SEU JORGE ESTÁ DORMINDO NA MINHA PORTA!"

"Tem o Brasil que é lindo
outro que fede
o Brasil que dá
é igualzinho ao que pede"

Seu Jorge chega só para dormir. Pelo menos tenta.Nunca pede nada. Se ajeita no papelão e nos poucos trapos sujos que carrega consigo. Sim, há um mendigo dormindo na minha porta, sob meus olhos. Converso com ele. Pergunto porque não procura o abrigo da prefeitura. Ele me diz que já esteve por lá mas não gostou, que se vira melhor na rua. Diz também que "era bem de vida". Que perdeu tudo quando colocaram fogo no seu barraco. Começa a chover. Chuva forte que incomoda. Não menos que saber que Seu Jorge está lá fora encharcado. Abro o armário e pego uma dessas capas de chuva, compradas para dias de jogo em estádios de futebol. Será que Seu Jorge já foi a algum jogo? Penso abobalhadamente, enquanto digo para o homem ali deitado: "Seu Jorge, levante os braços. Isso! Agora a bunda, Seu Jorge..." (a boca banguela se escangalha de rir). Os meninos passam por ele e o cumprimentam. Davi pergunta: "Seu Jorge, que música que você canta?" A música que ele canta ninguém ouve, filho. Nem sabem que ele fala, sequer o enxergam. Esse Seu Jorge é outro, filho. Outro que ninguém quer. E a vida segue...

sexta-feira, 8 de março de 2013

"AS ROSAS ACEITEM..."


Hoje, nós mulheres, receberemos rosas. Aceitem.

As rosas aceitem.

Mas não aceitem a invisibilidade, a anulação, a violência física e psicológica, a submissão.

Não aceitem o machismo, a misoginia, a ditadura da moda, do corpo perfeito, o padrão.

Não aceitem menores salários, piores cargos, assédio sexual e moral, a desvalorização.

As rosas aceitem.

Mas não aceitem a falta de assistência social, de políticas públicas, a negligência, a omissão.

Não aceitem a piada da “loira burra”, da “vaca que dá bom dia”, da amiga traiçoeira e invejosa,  a humilhação.

Não aceitem a "rainha do lar", pais ausentes, faxina, louça, fogão, a falta de colaboração.

As rosas aceitem.

Mas não aceitem quem não respeita individualidade, autonomia, espaço, vontade, desejo.

Não aceitem quem nos quer metade, laranjas, castradas, caladas, menores, feridas,

MORTAS. 

Mas as rosas aceitem... ou NÃO!