quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Tengo Ganas de Volar!

     Estava lembrando do meu velho. Se estivesse vivo completaria no dia seis, oitenta e seis anos. Numa ocasião, quando ele já tava bem ruinzinho, internado há mais de quarenta dias, entrou a enfermeira pra fazer aquelas perguntas de praxe. Mulher rude, soberba, sem um pingo de humanidade. Meu pai não gostava dela, exatamente por isso. Quando dizia: "Seu David, me dá o braço preu medir a pressão!" meu pai esticava o braço com a cara virada pro outro lado feito criança empacada, enquanto ela, mais mecânica do que eficiente, continuava seu ritual de todas as manhãs: "Seu David, o que o senhor tá sentindo hoje?", até que meu pai nesse dia, de forma herege quebrando o sagrado daquela rotina infeliz que pouco, ou nada, parecia importar àquela mulher tão jovem e cheia de saúde, respondeu: "O que eu tô sentindo hoje? Vontade de voar! Anota aí na sua pranchetinha: vontade de voar!"
A enfermeira explodiu em um discurso manjado de "estamos aqui para melhor servi-lo" e eu tive que interferir para apaziguar os ânimos. 
Esse era o meu velho que tinha o costume de dizer: " a coisa mais difícil de se lidar é o elemento humano, rapaz!" 
E não é que ele tinha razão?

Dezembro é tempo de saudade...