segunda-feira, 26 de maio de 2014

Ódio-uma doença que merece atenção

 A cidade de Guarujá, no último dia 06/05/2014, foi palco de mais um dos vários casos de linchamento que vem ocorrendo sistematicamente em todo o Brasil. Fabiane de Jesus, 33 anos, foi linchada com requintes de crueldade por uma turba enfurecida que violou, no mínimo, dez artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, inclusive e, sobretudo, o Artigo 3º: “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”.
     
Não há ineditismo nesse caso quanto à perda de direitos básicos. Seus algozes, assim como a vítima, foram, e continuam sendo, privados de todos os direitos que deveriam ser pertinentes a qualquer cidadão brasileiro: direito à saúde, educação, moradia, segurança, direito à qualidade de vida. A descrença em um Estado omisso, para o qual essa parcela da população parece invisível, é reflexo das mazelas causadas pelo caos social facilmente perceptível nas comunidades carentes.
     
Mas apesar do contexto propício à revoltas e indignações, a desassistência do Estado não seria o vetor, pelo menos não unicamente, responsável pela feitura de um crime de tamanha barbárie.  Até porque se por um lado houve algum avanço significativo na área social nos últimos anos, no país, por outro lado, há tempos a população é vilipendiada em seus direitos, nas mais diversas situações e causas, e assiste com uma passividade cristã a injustiça dos homens, trazendo consigo a indignação latente porque a ela, à população, cabe entender que IRA é um sentimento indigesto e que nós, enquanto povo brasileiro, somos, por princípios, um povo ordeiro, cordial e receptivo.
     
Se a violência extremada que permeia os linchamentos, como no caso de Fabiane, nos surpreende, é porque cometemos o erro crasso de não nos assumirmos como uma sociedade violenta.  A História do Brasil, apesar da negação, da utopia dos que teimam em nos apresentar como um povo pacífico, é pontuada por acontecimentos violentos. Revoltas, golpes, motins e levantes são uma constante ao longo dos séculos. A violência está também, mais que presente, enraizada no nosso dia-a-dia de maneira banal. O ódio, inerente ao nosso comportamento, nos leva a matar, e a mídia, senão produtora, age como incentivadora de um mercado que lhe é promissor, reverberando e potencializando os fatos mais escabrosos. Quanto mais sangue, mais vendas. O amor não vende jornais, não causa impacto. O ódio sim. O ódio é capaz de agrupar as mais diferentes vertentes ideológicas, classes sociais, colorações partidárias, em prol de um único objetivo: a vingança. 

 Se a gratidão é um peso por exigir retribuição, a vingança é um prazer. Não basta ver a “condenação dos mensaleiros”, é preciso ter o prazer de assistir a execração pública dos condenados. Não basta a vitória do meu time, é preciso ter o prazer de assistir a derrota humilhante do adversário. Não basta apenas julgar o comportamento do próximo, é preciso condenar e efetuar com as próprias mãos a pena deferida. Não basta assassinar, é preciso ter o prazer de assistir a agonia, o sofrimento de quem está morrendo, tirar fotos, filmar, postar em redes sociais, como no caso de Fabiane e de tantos outros linchamentos.
     
Nós matamos por motivo torpe, por Deus, contra Deus, no trânsito, nas ruas e dentro de casa. Matamos o que nos causa estranheza, o diferente, o que não conseguimos subestimar ou o que nos subestima. Matamos. E assim seguimos brincando de Deus, paradoxalmente escolhendo quem podemos eliminar por ter retirado a nossa imaculada PAZ.
      
A ira, a violência, o ódio, fazem parte do comportamento humano, e entender e aceitar essa condição é fundamental para o aprimoramento e preservação do estado de direito. Não há como propormos medidas efetivas para garantir os direitos básicos de qualquer cidadão brasileiro se não analisarmos os seus sentimentos em potencial, a sua natureza. Não há remédio para doença sem diagnóstico. 
"Para que nunca se esqueça, para que nunca se repita!"


Esse texto foi a minha pequena contribuição, em parceria com o presidente do Setorial Jurídico do PT/ Baixada Santista, Sidnei Aranha, para as discussões na área de Direitos Humanos, na elaboração do Plano de Governo do Alexandre Padilha.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"Discurso Inflamado. É grave, doutor?"

-E aí, doutor, é grave?
-Bom, o discurso está inflamado e vamos ter que retirá-lo.
-Retirar? Como assim, doutor, então é grave?
-Calma! É mais comum do que você pensa. Hoje, eu diria até que existe  uma epidemia de discurso inflamado. Mas  o seu caso não é dos piores. Uma cirurgia simples e você estará livre do problema.
-Mas, doutor, como o meu discurso inflamou desse jeito? Não entendo...cirurgia?
-Ah, minha cara, a doença é  assim mesmo, progressiva. É como se a sua realidade não reconhecesse o seu discurso e o atacasse insistentemente fazendo com que ele inflame. É o que nós chamamos de doença autoimune, sabe? Mas não se preocupe! Já disse que a cirurgia é simples e que só há um pequeno risco de perda da capacidade oratória ou inaptidão para o debate. Mas para isso, logo depois da cirurgia, entraremos com doses diárias de autocrítica e vida normal. Apenas pedirei que se afaste por uns tempos, um ou dois meses, de coisas como happy hours, redes sociais, chats de grandes sites, palanques, palcos, palquinhos,caixotes, enfim, qualquer coisa que possa provocar uma crise de abstinência, que é bastante comum nesses casos e que será debelada a partir do momento  em que formos aumentando paulatinamente as doses de autocrítica.
-Não sei se isso vai dar certo, doutor! Como viverei sem meu discurso inflamado? E se eu não quiser operar, posso?
-Olha, eu não aconselharia porque o discurso pode inflamar de tal forma, mas de tal forma que...
-Que o quê? Fala,doutor!
-...que pode estourar e voar retórica para tudo quanto é lado.
-Ah, nãaao! Isso não! Que coisa horrível! Vamos marcar AGORA essa cirurgia.
-Tudo ficará bem, querida! No final, se você não se adaptar a falta do discurso inflamado, ainda poderemos tentar um choque de realidade ou até mesmo um transplante de discurso, um mais moderado, claro. O importante é que procurou ajuda logo que os sintomas começaram, e não deu tempo do discurso inflamado subir à cabeça, caso que, aí sím, seria fatal. E aí, vamos aos exames pré-operatório?
-Nossa! Obrigada, doutor! Estou surpresa  com o diagnóstico mas...confiante. Vamos lá!
-Isso, assim é que se fala! Acredite. Sei do que estou falando, tenho muita experiência no assunto. Já cuidei de casos bem mais difíceis...A realidade lhe será ótima como companheira.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Mãe não é um ser etéreo. Acreditem!

Um beijo para TODOS que são mães. Um beijo pro pai que cria, pra vó que cria, pra tia, tio, pra madastra, enfim, pra quem dá atenção, carinho e cuidado. Beijo pra mãe sobrecarregada, pra mãe do dia-a-dia, pra mãe que não é santa, que não caiu do céu e que "não exerce a função mais importante do mundo." Um beijo pra mãe que nunca soube o que é instinto materno, mas sim, o de sobrevivência, praquela que muitas vezes pensou em jogar tudo pro alto porque "isso também é de Deus", beijo pra mãe que não "sabe sempre o que fazer", praquela que não comprou a cartilha "Os Deveres de Mãe" ou "Como Satisfazer Seus Filhos Por Vinte e Quatro Horas", beijo praquela que tem desejo e vontade própria que, às vezes, falam mais alto que a "sagrada maternidade", beijo pra que erra, e muito, como todo ser menos especial, o "não mãe". Beijo praquela que acerta, independente da obrigação de acertar. Acertar? Beijo praquela que é passional, pra que é crítica, pra que é divertida, pra que é chata, pra que ensina que as mães "não têm que ser todas iguais", pra que ensina a respeitar as diferenças, pra que alimenta os filhos com discernimento, autonomia e bom senso, sem maniqueísmo e dicotomia, pra que nutre, pra que supre, pra que supera, pra que espera, pra que está chegando agora, pra que está partindo e praquela também que achou, por bem, não ser mãe.

E como hoje é uma "ótima desculpa" pra falar da mãe, beijo pra Timoquinha, minha parceirona de uma vida inteira. Mãe real sem tempo integral. Perfeita nas suas imperfeições. Sempre presente sem sufocar e distante sem menosprezar. Mulher inteligente, lúcida, com um senso de justiça que só me enche de orgulho. Quando eu crescer, quero ser igual a ela. Beijo, mãe!


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