sábado, 28 de novembro de 2015

Reorganização Escolar. Alunos do Renê Entre A Cruz e a Espada

  Até agora são mais de duzentas escolas ocupadas por alunos contrários a reorganização escolar, no estado de São Paulo. Aqui no Guarujá, existe apenas uma escola ocupada, a Renê Rodrigues de Moraes, onde a previsão é de encerramento das atividades assim que transferirem todos os alunos, e onde eu estive ontem. A noite o número de alunos cai na ocupação, cerca de vinte, mas dependendo do período do dia, pode chegar até mesmo a sessenta alunos. Os pais se revezam no acompanhamento dos filhos, trazem comida, e ajudam a organizar as tarefas. Um ex professor ajuda a manter o clima de calmaria que só é interrompido quando alguém aparece no portão.
 Quando cheguei os alunos tinham acabado de fazer uma oficina de teatro e estavam eufóricos. Aproveitei para conhecer as imponentes dependências da escola e custei a acreditar que um prédio com aquela estrutura, apesar do péssimo estado de conservação, seria em breve desativado. Segundo um aluno, ali funcionam dez classes pela manhã, mais quatro no período da tarde e mais três no período da noite. Calculando a média de trinta alunos por classe são mais de quinhentos alunos que estudam no Renê de Moraes. 

Um pouco mais a frente uma grande reforma, uma obra de acessibilidade, incrivelmente incrustada em uma escola que será desativada (?). Segundo a mãe de um aluno é uma obra requisitada há tempos mas que só agora teve início. Pergunto se ela sabe algo sobre a vinda de uma ETEC (Escola Técnica) já que existe um zum zum zum extra-oficial de que a Prefeitura, numa tentativa desesperada de enxugar os gastos públicos, traria a Etec-Santos Dumont para o prédio do Renê, assim que ele for desativado. Ela me responde que até o momento recebeu apenas a visita de uma supervisora do Etec-Santos Dumont, mas que não há nada ainda oficial. Aliás, a sensação do momento é exatamente essa: incerteza. Tudo é provisório, informal, extra-oficial. Muitas questões e poucas respostas, principalmente dos que deveriam se responsabilizar pela Educação do Estado e do Município, e que tentam a todo custo resolver seus problemas de gestão deixando o ônus para os que deveriam ser os maiores beneficiados, os alunos. 


Nesse caso do Renê, a situação é ainda mais complicada porque estão encurralados entre a política ditatorial do Governo do Estado e a política oportunista eleitoreira do Governo Municipal, que mostra-se parceiro do atabalhoado plano de reorganização escolar do burocrático Secretário de Educação, porque vislumbra na desocupação da escola a chance de resolver seus dois grandes problemas com a Etec que JÁ EXISTE na cidade: o pagamento de aluguel e a falta de verba para a construção de um prédio próprio. Ou seja, bom para o Município, bom para para o Estado, mas e OS ALUNOS? O que querem e pensam os alunos do Renê, das outras escolas que ficarão sobrecarregadas? O que pensam professores, pais de alunos, comunidades? Ninguém foi consultado! Alunos do Renê que estão sendo transferidos para o Domingos de Souza, escola mais próxima, estão sendo retransferidos para o Tancredo Neves. As outras escolas não estão dando conta da demanda. Que relevância tem toda essa insatisfação gerada nesse processo de reorganização escolar imposto sobretudo sob um viés econômico e político e não educacional?

Educação e Saúde são setores fundamentais para um pais que se propõe moderno, que se orgulha de ser a quinta economia do mundo. Se falhamos nessas questões, não importam as graduações, conceitos ou notas que nos dêem no exterior, seremos para sempre subdesenvolvidos. Quem ainda tem essa consciência, volta para casa como eu voltei após ter visitado o Renê, com o gosto amargo da constatação de que a politicagem continua vindo antes, e ameaçando direitos constitucionais essenciais como o direito à Educação. Aos alunos do Renê deixo aqui o meu apoio e admiração. Quando se quer estudar e não há escolas que garantam um ensino de qualidade, ocupar é mais que um direito, é um dever! Avante, meninos e meninas!

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