Pular para o conteúdo principal

Postagens

NO OUTUBRO ROSA, A VIDA NO VERMELHO...

Com o  início da campanha internacional Outubro Rosa, que promove a importância da prevenção do câncer de mama, vários posts hoje sinalizavam o evento. Devidamente conscientizada, lá fui eu para uma Unidade Básica de Saúde, no Guarujá, atrás de um dos meus direitos mais primordiais: o direito à saúde. Na primeira Unidade a reação das atendentes é de desconfiança: “Mamografia?” diz uma das moças depois que ela e a amiga se entreolham. “Sim, como eu faço, é aqui?” insisto e elas me indicam outro endereço, outra Unidade. Lá vou eu. Mais atendentes desconfiadas.  Afinal, o que há de errado com a minha pergunta? A moça do arquivo, apesar de ser a responsável pelo agendamento do retorno das consultas, “não sabe me dizer quanto tempo eu levaria até fazer o exame”. Limita-se a dizer que primeiro tenho que passar por um médico em qualquer Unidade Básica de Saúde. E é só. Antes de ir embora, vou até uma sala mais a frente e, finalmente, encontro um funcionário atencioso, disposto...

"ESTRANGEIRA"

   Contra o tempo, corro tentando colocar o corpo, a cabeça e a casa em ordem. Há sempre o hiato na volta porque já não sei exatamente de onde volto. Não me reconheço mais em meus pares, agora tão díspares e igualmente queridos, para sempre amados. Estrangeira onde quer que eu vá, sempre é aqui, em mim, que me encontro, cavucando  meus desencontros, amores, dissabores, alegrias e afins. O cotidiano bate à porta. Não abro, mas ele mete os dois pés na porta e entra. Por que uma empresa imagina aumentar a sua produtividade aumentando em uma hora diária a carga horária de trabalho? Por que a suspensão do carro está fazendo barulho? Por que o gato está tão magro? Por que essa planta murchou? Será que sentiu a minha falta? Bobagem! Nem pessoas estão murchando mais por saudade. Entre meus emails, procuro por aquele que “vai mudar a minha vida”. Eu sei, ele não existe. Provavelmente nunca chegará, mas o gostoso é a espera no portão. Rodo pelas redes sociais e por alguns ...

KEILISTA KARAÍVA - "Garota Estileira"

Quando eu cheguei aqui no Guarujá a sua família foi uma das primeiras que conheci. Curiosamente, você foi sempre a que tive menos contato. Notícias suas só tinha assim, an passant. Sempre voando. Uma hora no Sul, outra em Sampa, outra em Trancoso. Mas em janeiro, quando te levei algumas vezes para a radioterapia em Santos, nos aproximamos. Mesmo com a morte vigiando da esquina, falávamos de vida. Das nossas vidas. Amores, dissabores e planos (e você tinha tantos!): o restaurante, sua filha, um novo amor, talvez voltar a Trancoso, quem sabe? Quem saberia, pelo menos quem ousaria,  naquele momento, pensar na estupidez da inexorabilidade da morte, esse hiato sem fim, desmantelando todos esses planos? Não sei se atropelo o sujeito ali dizendo que “quem tem planos não morre” ou, sei lá, acredito que seja melhor pensar assim que, de fato, você não tenha morrido, mas se libertado daquele corpo doente que não combinava em nada, nada, contigo.  Uma mulher inquieta, ativa, irre...

Totens de Areia

Uma das primeiras lições que meu saudoso e sapiente pai me ensinou e eu, como aprendiz dedicada, captei rapidamente é: sempre questione as figuras dos mitos, heróis, salvadores da pátria e afins. A fé cega, sob qualquer aspecto, é campo fértil para os mitômanos, criaturas semelhantes a totens feitos de areia, que não resistem a vendavais constantes. Surgem assim, do nada, atendendo ao clamor de uma população vilipendiada, que esperando noite e dia por algo extraordinário que lhe tire do deserto da aflição, apega-se a qualquer miragem que apareça. Na Câmara  Municipal do Guarujá, o guardião da moralidade e dos bons costumes do momento se apresenta na figura do Presidente  que, num arroubo ético sem precedentes, apropriou-se do título de “o novo caçador de marajás”, e acabou com os super salários de alguns funcionários da Casa. Atitude louvável, sem dúvida, não fosse o fato desses super salários terem sido aprovados pelos vereadores, inclusive por ELE MESMO, no apagar das luze...

"Não tenha medo, vai chegar"

Segundo dados do IBGE, os idosos- pessoas com mais de 60 anos- já somam 23,5 milhões de brasileiros, e a tendência é que cheguemos a 2050 com esse número triplicado, ou seja, 64 milhões.   Apesar dos avanços na área médica, na indústria de remédios e na melhoria da alimentação garantirem a longevidade, não necessariamente garantem a tranquilidade merecida a quem chega nessa faixa etária.  Os problemas são muitos (acessibilidade, assistência médica, exclusão social) e alguns segmentos da sociedade ainda não estão adaptados para atender a demanda, tornando a inserção do idoso, com suas qualidades e limitações, um verdadeiro desafio.  Alguns empresários mais antenados saíram na frente e reconhecem na mão de obra do idoso um diferencial. Se por um lado não têm mais a agilidade de outrora, por outro, são mais atenciosos, concentrados e pontuais. Já existe um incremento de 70% de idosos no mercado de trabalho, segundo o superintendente do Ministério do Trabalho. ...

"SEU JORGE ESTÁ DORMINDO NA MINHA PORTA!"

"Tem o Brasil que é lindo outro que fede o Brasil que dá é igualzinho ao que pede" Seu Jorge chega só para dormir. Pelo menos tenta.Nunca pede nada. Se ajeita no papelão e nos poucos trapos sujos que carrega consigo. Sim, há um mendigo dormindo na minha porta, sob meus olhos. Converso com ele. Pergunto porque não procura o abrigo da prefeitura. Ele me diz que já esteve por lá mas não gostou, que se vira melhor na rua. Diz também que "era bem de vida". Que perdeu tudo quando colocaram fogo no seu barraco. Começa a chover. Chuva forte que incomoda. Não menos que saber que Seu Jorge está lá fora encharcado. Abro o armário e pego uma dessas capas de chuva, compradas para dias de jogo em estádios de futebol. Será que Seu Jorge já foi a algum jogo? Penso abobalhadamente, enquanto digo para o homem ali deitado: "Seu Jorge, levante os braços. Isso! Agora a bunda, Seu Jorge..." (a boca banguela se escangalha de rir). Os meninos passam por ele e o cumprimenta...

"AS ROSAS ACEITEM..."

Hoje, nós mulheres, receberemos rosas. Aceitem. As rosas aceitem. Mas não aceitem a invisibilidade, a anulação, a violência física e psicológica, a submissão. Não aceitem o machismo, a misoginia, a ditadura da moda, do corpo perfeito, o padrão. Não aceitem menores salários, piores cargos, assédio sexual e moral, a desvalorização. As rosas aceitem. Mas não aceitem a falta de assistência social, de políticas públicas, a negligência, a omissão. Não aceitem a piada da “loira burra”, da “vaca que dá bom dia”, da amiga traiçoeira e invejosa,  a humilhação. Não aceitem a "rainha do lar", pais ausentes, faxina, louça, fogão, a falta de colaboração. As rosas aceitem. Mas não aceitem quem não respeita individualidade, autonomia, espaço, vontade, desejo. Não aceitem quem nos quer metade, laranjas, castradas, caladas, menores, feridas, MORTAS.  Mas as rosas aceitem... ou NÃO!