sábado, 5 de maio de 2012

"Que bonito ojos tienes..."

     Hoje vi o olhar do meu pai num determinado momento do dia. Ele estava internado e tinha recebido uma de suas inúmeras altas durante aquele ano. Apesar do corpo já bastante debilitado devido a doença, nunca me esqueço da altivez daqueles olhos galegos quando me viram. Acredito eu que no meio de tantas internações, ele não tinha se dado conta que já era antevéspera de Natal e que, sem sabermos, eu estava ali para aquele que seria o último Natal que passaríamos juntos. Em "La Noche Buena", depois da ceia como de costume, ele assistia a Missa do Galo destrinchando todas as agruras que havia passado na época do seminário, na Espanha, e de final, acompanhava as partes cantadas da missa junto com o Papa João Paulo II, justificando seus altos conceitos em latim. O curioso é que esse "ritual" não nos aborrecia e até esperávamos por ele. Já estávamos acostumados. Seis meses depoio ele faleceu e ficaram as lembranças e esses flashes que me acompanham até hoje, dez anos depois que ele se foi . São segundos que me vêm assim, a qualquer hora, em qualquer lugar, onde vejo seus olhos, principalmente. Aliás, olhos foi o que ele me deixou de herança e  meus olhos é o que ele enaltecia quando, com seu violão na mão, me chamava e cantava: "que bonitos ojos tienes..."  Saudade, meu velho. Saudade...


2 comentários:

  1. Você é de uma sensibilidade incrível, Clarinha. Que olhar bonito tem você, ou seja, que também tinha seu pai...

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  2. O olhar é fascinante. Sou apaixonada por e fiquei me perguntando a fascinação de um último... Que arrepio!

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