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Postagens

Sobre Amores e Vacinas.

 Quando eu ainda morava no Rio, mas não mais com a minha mãe, todo finds que ia pra casa ela aparecia com a crônica da Martha Medeiros, que saia no revista do jornal O Globo, pra que eu lesse. Sabia que eu gostava da Martha. Depois, quando vim pra São Paulo, toda vez que chegava na casa dela, vinha com uma pastinha com as crônicas do ano todo da Martha. Minha mãe é assim. Nos criou com essas sutilezas que foram e são fundamentais para mim. Dizem muito de quem eu sou hoje.  Quando começou a pandemia, ela era uma de minhas aflições dentre tantas outras. Diabética, 79 anos, pressão dando uns sustos vez em quando. Por tabela, meu irmão, diabético, hipertenso, fumante. Aqui de longe, coração na mão. Semana passada, mesmo com todos os cuidados,  consciência que têm sobre a pandemia, e depois de 3 doses da vacina, testaram positivo. Gelei. Meu irmão teve uns dias de febre e tosse. Minha mãe, um dia de febre baixa e acessos de tosse. Já estão lá pelo décimo dia, sem febre, sem si...

Enxofre

 Eu não preciso de um dia pra lembrar meus mortos. A constância do cheiro de enxofre que nos ronda nesses quase dois anos não me deixa esquecer dos que já se foram, e que ultimamente vão  de uma forma  que a maioria de nós sequer imaginou ser possível um dia. E aqui  ficamos com as perdas, com o hiato, imaginando aquilo que poderia ter sido, mas não será. Perdemos mais, perdemos quase dois anos. A vida suspensa a espera de. De que mesmo? Seguimos anestesiados e o que aflora agora não é um novo mundo de golfinhos em águas cristalinas,  ao contrário, o ódio não é mais latente, é constante e potente. No novo normal a estranheza não é boa. Não somos os mesmos e não somos melhores. O tiro saiu pela culatra. O tiro. Volto aqui comigo e sinto que roubaram algo irrecuperável, mas que mesmo assim todos já se adaptaram. É a vida. Ou foi  o medo da morte? Que ao invés de regenerar recrudesceu o que há de pior em nós? Espero pelo caos. Climatico, social, existêncial....

Ravena Porcelana Azul

 Eu tenho pensando muito no meu pai ultimamente. Nem sei porque ou talvez saiba e não precise dizer. Só sentir. Lembro das nossas conversas infindáveis madrugada adentro. Filosofando sobre a vida, tentando enganar a morte, como ja disse ali, outro dia, noutra esquina. Na real, nunca soube se ele era ateu. Sempre que começavamos a falar do etéreo, descambava para as agruras bem materias que sofrera na época do seminário. Quando ficou mais adoentado, ja no finalzinho da jornada, pedia pra que a gente rezasse, que pedisse a Deus por ele. Isso me surprendia. Só aí tive a dimensão da fragilidade daquele momento. Hoje li que a morte é um mistério que desorganiza e comove. É isso. A pulsação de morte que persiste nesses dias tão desgraçadamente iguais desorganiza e comove. Hoje não há mais a expectativa pela melhora do jovem intubado. O artista. Brilhante. Se foi. Hoje a dor continua em milhares de anônimos. Uma luta desigual, desumana, negligenciada por quem deveria ser o cerne. Eu não,...

Espera, mãe. Espera que chego já!

 O vento trouxe o cheiro do pó de arroz que a minha mãe usava quando eu era bem menor, já que pequena nunca fui, apesar de meu pai sempre me chamar de miúda. Eu lembrei que dias assim, de ceu azul e sol alto, traziam enorme angústia quando ela atravessava o portão e saia. Se abaixava pra me beijar e dizer que já voltava, e deixava comigo só o cheiro do pó de arroz.  Era com esse cheiro que eu a acompanhava entre as grades da janela  até ela sumir no final da rua. Nunca um cheiro representou tanto pra mim a sensação de perda  como o cheiro desse pó de arroz. Custava a me afastar da janela e volta e meia  conferia para ver se já havia um retorno de quem prometera jamais me abandonar. E sim, ela sempre voltava. O cheiro do pó de arroz voltava  primeiro e anunciava a felicidade que viria a seguir.  Agora era o cheiro da felicidade, do reencontro, nao mais da angústia.  Só pra dizer que era preu estar de férias e visitando a minha mãe. O corona não dei...

CIDADÃO DE BEN$

 Hoje é domingo,  dia do cidadão de bens ir à igreja. O cidadão de bens sonega impostos e é a favor da privatização. O cidadão de bens é  meritocrata, acha que conseguiu tudo somente com a ajuda de Deus, talvez porque saiba que não será materialmente contestado. Aliás, o cidadão de bens detesta ser contestado. Tem uma sapiência nata, superior aos anos de estudo dos colegas, ops, cientistas. Tem um ranço escravocrata, mas não é racista. Tem até amigo negro, é assim mesmo, no singular. Gay já é mais complicado. Respeita desde que não mexam com ele, e ignora que a filha é lésbica. Saber, sabe. Se tem uma coisa que o cidadão de bens tem é auto estima. Ou seria complexo de superioridade? O importante é que amam. Amam a esposa e a amante e acham que feminismo é o contrário de machismo. Isso quando se dão ao trabalho de tocar nesses assuntos, tão menores, tão identitários. Afinal, cidadãos de bens têm um país a salvar. Dizem que não  gostam de política, mas possuem uma neut...

Fred, o gato que não era qualquer gato.

 Indiferença, insensibilidade, frieza, diria o senso comum, mas eu achava que era personalidade mesmo. Sempre à espreita, mas nunca ausente. Fred já nasceu criado. Pouco afeito à melações e rabugentinho, chegou com um rabinho cotó que nunca soubemos se era algo congênito ou se o pobre tinha passado maus percalços antes de chegar até nós, sua familia. Éramos sete. O Fred era o gato do vô Arnaldo. Se tinha uma missão na vida, acho que era desemburrar o velho, que ria feito criança com as traquinagens que aprontava com o gato. Depois, feitas as pazes, dormiam os dois largados no sofá cumprindo rigorasamente a sesta abençoada de todos os dias. Há uns oito anos o vô Arnaldo se foi e Fred sentiu o baque. Perdeu o seu companheiro. Aos poucos foi se achegando ao resto da familia, nós. Fred fez 18 anos esse ano, Pedro, meu filho mais velho, 17. Fred cresceu e envelheceu com os meninos. Um senhorzinho procurando aconchego tinha se tornado ultimamente depois que foram canceladas suas voltinha...

Planetinha Azul

Essa pandemia é um sinal mais que evidente que esse Planetinha Azul está saturado. O ar está saturado, a água está saturada, a terra, nós estamos saturados. Gente demais, fazendo coisa de menos para evitar o pior.  Pior, se omitindo,  mentindo, negando. Tô quase começando a achar que a Terra é plana mesmo, de tanta porrada que já levou. E leva. Achatou.  A curva não, essa continua desenfreada. Abalroando em cheio países carentes até de saneamento básico. Água? É ouro. Tem quem paga. Cada vez menos um direito universal. Cada vez menos direitos. À moradia, à saúde, à vida. Roleta russa. Sobrevive mais quem tem mais condições. Quem tem mais condições se acha imune. Purifica seu aquário com Lysoform, assiste Netflix, e faz uma receita nova para ajudar na imunidade. Se, pá, flexibiliza, pega sua prancha de longboard e vai aplaudir o por do sol, de tardinha, na praia de selo internacional.  Luta pelo fim dos canudinhos, pela vida das tartarugas, e denuncia o morador de rua...