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Tengo Ganas de Volar!

     Estava lembrando do meu velho. Se estivesse vivo completaria no dia seis, oitenta e seis anos. Numa ocasião, quando ele já tava bem ruinzinho, internado há mais de quarenta dias, entrou a enfermeira pra fazer aquelas perguntas de praxe. Mulher rude, soberba, sem um pingo de humanidade. Meu pai não gostava dela, exatamente por isso. Quando dizia: "Seu David, me dá o braço preu medir a pressão!" meu pai esticava o braço com a cara virada pro outro lado feito criança empacada,  enquanto ela, mais mecânica do que eficiente, continuava seu ritual de todas as manhãs: "Seu David, o que o senhor tá sentindo hoje?", até que meu pai nesse dia, de forma herege quebrando o sagrado daquela rotina infeliz que pouco, ou nada, parecia importar àquela mulher tão jovem e cheia de saúde, respondeu: "O que eu tô sentindo hoje? Vontade de voar! Anota aí na sua pranchetinha: vontade de voar!" A enfermeira explodiu em um discurso manjado de "estamos aqui para me...

"Que bonito ojos tienes..."

     Hoje vi o olhar do meu pai num determinado momento do dia. Ele estava internado e tinha recebido uma de suas inúmeras altas durante aquele ano. Apesar do corpo já bastante debilitado devido a doença, nunca me esqueço da altivez daqueles olhos galegos quando me viram. Acredito eu que no meio de tantas internações, ele não tinha se dado conta que já era antevéspera de Natal e que, sem sabermos, eu estava ali para aquele que seria o último Natal que passaríamos juntos. Em "La Noche Buena", depois da ceia como de costume, ele assistia a Missa do Galo destrinchando todas as agruras que havia passado na época do seminário, na Espanha, e de final, acompanhava as partes cantadas da missa junto com o Papa João Paulo II, justificando seus altos conceitos em latim. O curioso é que esse "ritual" não nos aborrecia e até esperávamos por ele. Já estávamos acostumados. Seis meses depoio ele faleceu e ficaram as lembranças e esses flashes que me acompanham até hoje, dez anos de...