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Mostrando postagens com o rótulo clara gurgel

Toda Maternidade é Um Desafio!

 Eu tive duas gestações bem tranquilas, diga-se de passagem. Nada de dores, inchaços, sobrepeso ou qualquer outra intercorrência costumeira que se possa creditar às gestantes. Duas cesáreas. A primeira tão tranquila que no quinto dia pós cirurgia tinha que me lembrar a todo custo que estava recém operada e não podia me exceder. Em casa, novas experiências. Nunca tinha cuidado de criança alguma, e mais do que instinto materno, tive instinto de sobrevivência pra cuidar de mim e de uma outra vida que se apresentava ali, diante dos meus olhos, em fragilidade e dependência. Com toda a alegria que eu tenho em ser mãe de dois carinhas maravilhosos, devo confessar que nem sempre foi fácil. É tenso, sim, é cansativo, sim, tem horas que dá vontade de sair correndo, sim.  Porque às vezes o leite empedra, o umbigo não cicatriza, o choro vem fácil e o sono fica difícil. Aos poucos, tateando, fui aprendendo a tornar as coisas menos pesadas ou menos angustiantes. Ah, porque sim, às vezes ...

Tengo Ganas de Volar!

     Estava lembrando do meu velho. Se estivesse vivo completaria no dia seis, oitenta e seis anos. Numa ocasião, quando ele já tava bem ruinzinho, internado há mais de quarenta dias, entrou a enfermeira pra fazer aquelas perguntas de praxe. Mulher rude, soberba, sem um pingo de humanidade. Meu pai não gostava dela, exatamente por isso. Quando dizia: "Seu David, me dá o braço preu medir a pressão!" meu pai esticava o braço com a cara virada pro outro lado feito criança empacada,  enquanto ela, mais mecânica do que eficiente, continuava seu ritual de todas as manhãs: "Seu David, o que o senhor tá sentindo hoje?", até que meu pai nesse dia, de forma herege quebrando o sagrado daquela rotina infeliz que pouco, ou nada, parecia importar àquela mulher tão jovem e cheia de saúde, respondeu: "O que eu tô sentindo hoje? Vontade de voar! Anota aí na sua pranchetinha: vontade de voar!" A enfermeira explodiu em um discurso manjado de "estamos aqui para me...

Reorganização Escolar. Alunos do Renê Entre A Cruz e a Espada

   Até agora são mais de duzentas escolas ocupadas por alunos contrários a reorganização escolar, no estado de São Paulo. Aqui no Guarujá, existe apenas uma escola  ocupada, a Renê Rodrigues de Moraes, onde a previsão é de encerramento das atividades assim que transferirem todos os alunos, e onde eu estive ontem. A noite o número de alunos cai na ocupação, cerca de vinte, mas dependendo do período do dia, pode chegar até mesmo a sessenta alunos. Os pais se revezam no acompanhamento dos filhos, trazem comida, e ajudam a organizar as tarefas. Um ex professor ajuda a manter o clima de calmaria que só é interrompido q uando alguém aparece no portão.  Quando cheguei os alunos tinham acabado de fazer uma oficina de teatro e estavam eufóricos. Aproveitei para conhecer as imponentes dependências da escola e custei a acreditar que um prédio com aquela estrutura, apesar do péssimo estado de conservação, seria em breve desativado. Segundo um aluno, ali funcionam dez classes ...

Consciência Negra: Pra Quem e Pra quê?

 Eu "adoro" esse discursinho raso de que "não precisamos de um Dia da Consciência Negra", que cotas é segregação e blablablá. Mais um pouco e imagino o sujeito de mãozinhas dadas com os amiguinhos saindo pelas ruas e cantando Imagine, do John Lennon. Mas, sinto informar, a vida é real e de viés. Hoje, mais de um século após a abolição da escravidão ainda temos uma sociedade eivada de preconceitos, de racistas cada vez mais radicais que se orgulham de ver explodindo um sentim ento de ódio que sempre esteve latente nas veias da sociedade.  É o negro que mais sofre as agruras sociais, é o que primeiro corre quando a polícia chega porque se ficar é o primeiro que cai. É a mulher negra que é sempre a mais estigmatizada, a mais sexualizada, a que menos inspira credibilidade ou confiança. São os negros, ainda, que ocupam os piores empregos, ganham os piores salários e tem menos oportunidades porque sempre, durante a vida toda, esbarram no "problema" da cor da pe...

Eu Passarinho...

O que liberta também é prisão. A mão que afaga é o ego da corrente  Se não raro, raso, mergulho profundo. Demente. Descrente. Desatino. Cretino. Falo é nada. Só observo e faço poemas.  Como quem quer viver, Desanuvio.                                                                    .

Fora de Órbita

O silêncio é ouro. A palavra é prata. Bala de prata no desejo que há pouco fervia no ventre. Estocada, punhalada, fim do mundo. Saturno perde seus anéis e como ovo choco não mata a fome de quem quer banquete e roer os ossos. O silêncio é ouro. Veste a hora como ninguém. Não se impõe. Apenas chega e se perpetua. Naturalmente.

Intervenção Cênica Projeto Guarujá En(Cena)

     Quando cheguei à Praça 14 Bis,  com  o Davi e a Antônia Flor (7 e 4 anos), a intervenção cênica do Projeto Guarujá En(Cena) já estava pra lá da metade. Nem por isso deixei de me encontrar em diversos momentos do que deu pra assistir. No meio do burburinho, logo de cara, nos deparamos com uma noiva vagando. O olhar perdido era bem diferente das capas efusivas da revista Noiva do mês de maio, mas, antes que eu concluís se qualquer raciocínio, passou uma mulher gritando e rasgando a plateia, uma pequena colcha formada pela aglomeração, que ria encabulada, cochichava e disfarçava o incômodo. “Por que essa moça estoura contra os postes os balões que traz amarrados ao corpo? Que sentido há nesse gesto tão insano?” Pois eu, depois de quase tropeçar na realidade de uma melancia destroçada no chão, guardei os meus balões imaginários tantas e tantas vezes estourados contra os postes, e viajei em outros balões que, libertos por tesouras providenciais, perderam-se ent...

Maré Cheia

Me dê espaços.  Transformo vazios em acontecimentos, Tormento em esquecimento. Danço fora do compasso, Saio pela tangente Conheço a "toda la gente", Viro, tropeço, e sigo em frente. Me dê espaços, Não se meta. Não me diga onde e nem quando. Apenas observe. Admire. Ou não. Mas me dê espaços E a certeza de saber pra onde voltar antes da maré cheia.

"Discurso Inflamado. É grave, doutor?"

-E aí, doutor, é grave? -Bom, o discurso está inflamado e vamos ter que retirá-lo. -Retirar? Como assim, doutor, então é grave? -Calma! É mais comum do que você pensa. Hoje, eu diria até que existe  uma epidemia de discurso inflamado. Mas  o seu caso não é dos piores. Uma cirurgia simples e você estará livre do problema. -Mas, doutor, como o meu discurso inflamou desse jeito? Não entendo...cirurgia? -Ah, minha cara, a doença é  assim mesmo, progressiva. É como se a sua realidade não reconhecesse o seu discurso e o atacasse insistentemente fazendo com que ele inflame. É o que nós chamamos de doença autoimune, sabe? Mas não se preocupe! Já disse que a cirurgia é simples e que só há um pequeno risco de perda da capacidade oratória ou inaptidão para o debate. Mas para isso, logo depois da cirurgia, entraremos com doses diárias de autocrítica e vida normal. Apenas pedirei que se afaste por uns tempos, um ou dois meses, de coisas como happy hours, redes sociais, chats de g...

Mãe não é um ser etéreo. Acreditem!

Um beijo para TODOS que são mães. Um beijo pro pai que cria, pra vó que cria, pra tia, tio, pra madastra, enfim, pra quem dá atenção, carinho e cuidado. Beijo pra mãe sobrecarregada, pra mãe do dia-a-dia, pra mãe que não é santa, que não ca iu do céu e que "não exerce a função mais importante do mundo." Um beijo pra mãe que nunca soube o que é instinto materno, mas sim, o de sobrevivência, praquela que muitas vezes pensou em jogar tudo pro alto porque "isso também é de Deus", beijo pra mãe que não "sabe sempre o que fazer", praquela que não comprou a cartilha "Os Deveres de Mãe" ou "Como Satisfazer Seus Filhos Por Vinte e Quatro Horas", beijo praquela que tem desejo e vontade própria que, às vezes, falam mais alto que a "sagrada maternidade", beijo pra que erra, e muito, como todo ser menos especial, o "não mãe". Beijo praquela que acerta, independente da obrigação de acertar. Acertar? Beijo praquela que é passional,...

"ESTRANGEIRA"

   Contra o tempo, corro tentando colocar o corpo, a cabeça e a casa em ordem. Há sempre o hiato na volta porque já não sei exatamente de onde volto. Não me reconheço mais em meus pares, agora tão díspares e igualmente queridos, para sempre amados. Estrangeira onde quer que eu vá, sempre é aqui, em mim, que me encontro, cavucando  meus desencontros, amores, dissabores, alegrias e afins. O cotidiano bate à porta. Não abro, mas ele mete os dois pés na porta e entra. Por que uma empresa imagina aumentar a sua produtividade aumentando em uma hora diária a carga horária de trabalho? Por que a suspensão do carro está fazendo barulho? Por que o gato está tão magro? Por que essa planta murchou? Será que sentiu a minha falta? Bobagem! Nem pessoas estão murchando mais por saudade. Entre meus emails, procuro por aquele que “vai mudar a minha vida”. Eu sei, ele não existe. Provavelmente nunca chegará, mas o gostoso é a espera no portão. Rodo pelas redes sociais e por alguns ...