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Mostrando postagens com o rótulo morte

"Existirmos. A que será que se destina?"

      Por volta da uma da tarde, não importa o tempo: calor,  frio ou chuva, lá está ela. O rosto cheio de sulcos, cansado, entregam os anos. Uns setenta?  Se bem que pode ser mais nova do que eu. Na cabeça, um lenço colorido esconde todos os cabelos. Nas mãos, sempre um cigarro e uma latinha de cerveja. No corpo, sempre vestidos comportados, com mangas, e de comprimento que lhe tapa as canelas. Às vezes está acompanhada de um cachorro, um vira latinha caramelo, e não creio que seja alguém que esteja em situação de rua. Todos os dias lá está ela, sentada na última mesa de um bar de esquina, quieta, olhando quem passa, quem vem e quem vai. Paro no sinal e fico intrigada tentando adivinhar que caminhos ela trilhou, o que faz, se tem alguém, onde mora. Não me parece aflita e nem angustiada, nem feliz, apenas conformada, fazendo o seu ritual diário. Uma vida, um cigarro e uma cerveja. O sinal abre e eu sigo também  dando sequência a minha rotina. Será que ela p...

Claudia Jimenez

     Mais um sessão de quimioterapia e ela queria passar pelo corredor onde um sujeito tinha a perna engessada esticada atravancando a passagem. Esperou que ele se tocasse. Tentou passar ao largo. Não conseguiu. Voltou. Pediu licença e o sujeito carrancudo e mal humorado disse: "você não está vendo que eu estou com a perna engessada?" o que ela rebateu de pronto levantando a peruca: "e você não está vendo que eu estou com câncer?"       Essa história Claudia Gimenez, que nos deixa hoje, contou certa feita numa entrevista perdida aí em algum lugar do passado. Não sei porque vira e mexe ela me vem à tona. Talvez porque aprecie pessoas inteligentes e espirituosas mesmo diante das adversidades.  É isso. "De repente do riso fez-se o pranto."

Fred, o gato que não era qualquer gato.

 Indiferença, insensibilidade, frieza, diria o senso comum, mas eu achava que era personalidade mesmo. Sempre à espreita, mas nunca ausente. Fred já nasceu criado. Pouco afeito à melações e rabugentinho, chegou com um rabinho cotó que nunca soubemos se era algo congênito ou se o pobre tinha passado maus percalços antes de chegar até nós, sua familia. Éramos sete. O Fred era o gato do vô Arnaldo. Se tinha uma missão na vida, acho que era desemburrar o velho, que ria feito criança com as traquinagens que aprontava com o gato. Depois, feitas as pazes, dormiam os dois largados no sofá cumprindo rigorasamente a sesta abençoada de todos os dias. Há uns oito anos o vô Arnaldo se foi e Fred sentiu o baque. Perdeu o seu companheiro. Aos poucos foi se achegando ao resto da familia, nós. Fred fez 18 anos esse ano, Pedro, meu filho mais velho, 17. Fred cresceu e envelheceu com os meninos. Um senhorzinho procurando aconchego tinha se tornado ultimamente depois que foram canceladas suas voltinha...

Ódio-uma doença que merece atenção

 A cidade de Guarujá, no último dia 06/05/2014, foi palco de mais um dos vários casos de linchamento que vem ocorrendo sistematicamente em todo o Brasil. Fabiane de Jesus, 33 anos, foi linchada com requintes de crueldade por uma turba enfurecida que violou, no mínimo, dez artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, inclusive e, sobretudo, o Artigo 3º: “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”.       Não há ineditismo nesse caso quanto à perda de direitos básicos. Seus algozes, assim como a vítima, foram, e continuam sendo, privados de todos os direitos que deveriam ser pertinentes a qualquer cidadão brasileiro: direito à saúde, educação, moradia, segurança, direito à qualidade de vida. A descrença em um Estado omisso, para o qual essa parcela da população parece invisível, é reflexo das mazelas causadas pelo caos social facilmente perceptível nas comunidades carentes.       Mas apesar do contexto propíc...

KEILISTA KARAÍVA - "Garota Estileira"

Quando eu cheguei aqui no Guarujá a sua família foi uma das primeiras que conheci. Curiosamente, você foi sempre a que tive menos contato. Notícias suas só tinha assim, an passant. Sempre voando. Uma hora no Sul, outra em Sampa, outra em Trancoso. Mas em janeiro, quando te levei algumas vezes para a radioterapia em Santos, nos aproximamos. Mesmo com a morte vigiando da esquina, falávamos de vida. Das nossas vidas. Amores, dissabores e planos (e você tinha tantos!): o restaurante, sua filha, um novo amor, talvez voltar a Trancoso, quem sabe? Quem saberia, pelo menos quem ousaria,  naquele momento, pensar na estupidez da inexorabilidade da morte, esse hiato sem fim, desmantelando todos esses planos? Não sei se atropelo o sujeito ali dizendo que “quem tem planos não morre” ou, sei lá, acredito que seja melhor pensar assim que, de fato, você não tenha morrido, mas se libertado daquele corpo doente que não combinava em nada, nada, contigo.  Uma mulher inquieta, ativa, irre...

"DEIXEM ELA MORRER EM PAZ!"

Quando entro na enfermaria, vejo que a pessoa a quem fui visitar está bem. Ao lado dela, outra mulher. Parece grávida. Pergunto o que há e recebo a resposta de que não é “problema com a gravidez”. Ela tem um tumor, ela tem metástase e ela não tem mais vida. É uma paciente classificada como terminal. Vomita sem parar. Quase desfalecida, agoniza ao lado de um marido apático. Impotente diante da morte? Conformado? A cena incomoda. Me incomoda. Muito. Não pela doença, não que seu martírio me ofenda. É a impotência que me corrói. O sofrimento dela me corrói. A dor dela me dói...  Na sala de enfermagem pergunto se alguém pode fazer algo por aquela mulher e uma das primeiras perguntas que me fazem é se “sou sua acompanhante”. Por quê? A resposta seria diferente? Num tom burocrático, a enfermeira me explica que o caso dela é terminal, que já comunicou a família, que o médico já medicou e disse que “a deixassem morrer em paz!” Insisto. Não seria o caso de uma UTI? “Filha, não podemos fazer ...

"DON DAVID"

No próximo dia 06 de Dezembro, se meu pai estivesse vivo, completaria oitenta e dois anos. Há dez ele me deixou. "Partiu dessa para uma melhor", "fez a passagem", "foi para o céu", "para uma outra dimensão", "virou poeira cósmica", sei lá eu...      Fato é que, não estamos preparados para esse momento. Mesmo no caso do meu pai que já vinha doente há algum tempo, foi difícil aceitar que não o veria nunca mais. Não, não acho que quando a pessoa está doente a gente já espera a morte como desfecho, ao contrário, já estava tão "acostumada" a vê-lo doente, que uma hora cheguei mesmo a acreditar que ele fosse viver assim por anos a fio. Mas assim é a morte: num dia você está, no outro, já não está mais e fim... finito, vazio, oco, sem eco, seco...      O mais cruel da morte  é que tudo continua igualzinho ao que estava ontem. Nada deixa de acontecer porque você perdeu alguém que lhe era muito querido. Só você está de luto. Os ônib...

"LUIS GONÇALVES? QUEM É LUIS GONÇALVES?"

     São 6:54 da manhã. Sai uma catraia. Nela está Luis Gonçalves. Ele passa mal. A catraia volta. Cinco homens ajudam a tirar Luis Gonçalves, já quase desfalecido. Deixam-no lá, no chão da estação, a espera de socorro. O homem agoniza. A bilheteira chama o SAMU. Uma, duas, três, seis vezes... nada! O tempo passa. O homem continua agonizando. Trinta minutos depois, chega a polícia com a missão de espantar os curiosos. O que me espanta mesmo, é saber que o único sentimento que os move nesse momento é a curiosidade. Finalmente, depois de 55 minutos, chega o SAMU. Luis Gonçalves já não precisa mais. Já não agoniza mais. O sangue que cada vez menos circula no corpo de algumas pessoas, agora também pára de circular no corpo de Luis Gonçalves. A diferença é que, ELE, está morto!!      Luis Gonçalves? Quem é Luis Gonçalves?      São 7:54 da manhã. Sai mais uma catraia. Nela não está Luis Gonçalves...e ...