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Fred, o gato que não era qualquer gato.

 Indiferença, insensibilidade, frieza, diria o senso comum, mas eu achava que era personalidade mesmo. Sempre à espreita, mas nunca ausente. Fred já nasceu criado. Pouco afeito à melações e rabugentinho, chegou com um rabinho cotó que nunca soubemos se era algo congênito ou se o pobre tinha passado maus percalços antes de chegar até nós, sua familia. Éramos sete. O Fred era o gato do vô Arnaldo. Se tinha uma missão na vida, acho que era desemburrar o velho, que ria feito criança com as traquinagens que aprontava com o gato. Depois, feitas as pazes, dormiam os dois largados no sofá cumprindo rigorasamente a sesta abençoada de todos os dias. Há uns oito anos o vô Arnaldo se foi e Fred sentiu o baque. Perdeu o seu companheiro. Aos poucos foi se achegando ao resto da familia, nós. Fred fez 18 anos esse ano, Pedro, meu filho mais velho, 17. Fred cresceu e envelheceu com os meninos. Um senhorzinho procurando aconchego tinha se tornado ultimamente depois que foram canceladas suas voltinha...

Planetinha Azul

Essa pandemia é um sinal mais que evidente que esse Planetinha Azul está saturado. O ar está saturado, a água está saturada, a terra, nós estamos saturados. Gente demais, fazendo coisa de menos para evitar o pior.  Pior, se omitindo,  mentindo, negando. Tô quase começando a achar que a Terra é plana mesmo, de tanta porrada que já levou. E leva. Achatou.  A curva não, essa continua desenfreada. Abalroando em cheio países carentes até de saneamento básico. Água? É ouro. Tem quem paga. Cada vez menos um direito universal. Cada vez menos direitos. À moradia, à saúde, à vida. Roleta russa. Sobrevive mais quem tem mais condições. Quem tem mais condições se acha imune. Purifica seu aquário com Lysoform, assiste Netflix, e faz uma receita nova para ajudar na imunidade. Se, pá, flexibiliza, pega sua prancha de longboard e vai aplaudir o por do sol, de tardinha, na praia de selo internacional.  Luta pelo fim dos canudinhos, pela vida das tartarugas, e denuncia o morador de rua...

Soninha me trouxe palavrinhas.

Temporada de Verão. Boa para quem e para quê?

Toda temporada me pego pensando cá com as minhas castanholas. Temporada de verão é boa para quem e para que, cara palida? Talvez para o turista, para os comerciantes, para os donos de hoteis, donos de restaurantes, donos de, donos de, e donos de, mas para a cidade, para a população do Guarujá, é boa para quê?  A cidade superlota, o trânsito vira um caos, filas intermináveis, ficamos mais vulneráveis e o município gasta mais dinheiro para garantir a segurança. Dos turistas. A água vira artigo de  luxo. Só tem quem mora no centro ou pode pagar até  R$ 2.500 por um caminhão pipa. Na periferia a vida segue igual, a torneira seca, as bocas bombando com os playba comprando bala, e os ônibus partindo lotados de copeiras,  diaristas, zeladores, babás, camareiras e seguranças de condomínio. Graças a Deus tem emprego! O turismo gera emprego. Precarizado. É a parte que cabe à senzala nesse missancene de ex balneário de luxo. A Pérola do Atlântico, cada vez mais ostra, esc...

Cê nao guenta, moça!

Muita lacração e pouca abertura. A vida é ali na esquina, moça. Na quebrada. Cê não guenta, moça. Ali quem lacra é o marginal e o pastor neopentecostal. A palavra que chega é a da Bíblia, e a segurança quem dá é o Irmão. Vai, lá, moça, vai lá empoderar ela. Leva seu doutorado, seu feminismo perfumado, seu discurso pink deturpado. Vai, vai de batom vermelho nessa tua cara branca pra mostrar que não tem medo de ser chamada de puta. Puta? Cê não guenta, moça. Cê não guenta meia hora de esquina. A navalha é na carne. O tiro vem do Estado, da sociedade, da vida. Tolida, fodida. Lacra, moça, fala bonito e não representa aquela que sempre se ausenta. Fala pras iguais, conforta as que têm conforto, ameniza a culpa de quem escolhe a mão que não vai soltar. Lacra linda na selfie,  no universo feminino. Faz o jogo da bolha, do sistema, do patriarcado. Lacra de rosa e esquece o vermelho sangue das mulheres invisibilizadas. Lacra absoluta onde mal nenhum te alcance. Lacra. Não abre. Porque aq...

ILHA

"Não me encha de flores de filhos nem de fados Não me ofereça prendas nem bodas E não me envolva com esses mil abraços de me impor limites Eu não sou seu continente E não me venha com esses aviões em esquadra sobrevoar meu território Não despeje suas bombas sobre minhas vilas e Nem tente invadir minhas normandias Eu não sou seu continente Não invente capitanias e não desenhe mapas com esse vinco no lençol de linho pra demarcar minhas superfícies Não proponha tratados com letras do tamanho de formigas nem pactos nem acordo de paz nenhuma Eu não sou seu continente Não ultrapasse minhas fronteiras não exploda minhas pontes não tente arapucas artefatos bélicos minas terrestres Não subestime minhas trincheiras Eu não sou seu continente Não quero sua catequese nem sua crítica nem sua nota nem sua poda Nem seu afago nem esse beijo de dizer amores que me deixa muda Não planeje embargos nem emboscadas Não queira ocupar meus peitos nem meus pátios Eu não sou seu contine...

Um tangaço para o meu pai!

Quando eu era menor, pequena nunca fui, lembro do meu pai debruçado na vitrola ouvindo ópera, quando não, tango. Mas não era só ouvindo. Ele vivia todas aquelas árias. Uma sofrência só. Isso quando não batucava saleroso os refroes dos tangaços preferidos. Às vezes pegava o violão e me chamava pra ouvir " qué bonitos ojos tienes debajo de esas dos cejas" e que eu entendia "debajo de sete quedas" e não via sentido algum. Cachoeira? Catataratas? Lembro também da gente discutindo os editais do Jornal do Brasil madrugada adentro, filosofando sobre a vida, enganando a morte. Meu pai não era muito de festa. Não dessas tradicionais. A festa era ele mesmo. Onde chegava era um acontecimento. Não nasceu mesmo pra ser plateia. Não que isso fosse sempre um conforto, mas era ele. Meu pai. Com todos os bônus e ônus. Herói possível. Que errava muito, mas acertava também. Dotado de um grau de humanidade que anda nos faltando hoje nesse mundo cada vez mais hostil. Meu Dom Quixot...