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A felicidade é comezinha

Davi é meu filho caçula. Tem cinco anos, fala pelos cotovelos (ainda bem!) e tem aquela curiosidade voraz pelas coisas do mundo, que é inerente a idade. Hoje de manhã, enquanto eu fazia café, passou por mim na cozinha e disse: -Mãe, é NOJENTO uma moça namorando um velho? -Como assim, “nojento”, Davi? Qual o problema? -Ah, mãe, é estranho. -Estranho por quê? A moça não pode gostar do velho só porque ele é velho? -Ah, mãe, pode sim. É igual no conto de fadas, ela gosta do velho e a fada toca a varinha mágica nele e ele vira moço. -Não, Davi. Não é assim. Se a moça gostar mesmo dele, vai gostar dele de qualquer jeito, velho, novo, feio, bonito, não importa.  Pode ser nova gostando de velho, velha de velho, velha de novo, novo de nova, enfim, não tem problema nenhum. E se a mãe fosse casada com um homem mais velho, por exemplo?  Davi responde aflito: -Não, mãe. Você poderia pegar uma doença! -Davi, velhice não se pega. Velhice não é doença contagiosa. Olha só, q...

"O Rei da Cocada Preta"

Nesse final de semana, a revista Veja São Paulo imortalizou, o até então pouco conhecido, Alexander de Almeida. Num vídeo de quase quatro minutos, Alexander dá dez dicas “valiosas” de como tornar-se o “Rei do Camarote”. Entre outras pérolas, é preciso ter carrão, bebida que pisca, mulheres (as bonitas, claro!) e celebridades que, finalizando, agregariam “valor ao camarote”. Sim, eu assisti ao vídeo e, num primeiro momento, confesso que ri do patético que estamos NOS transformando. SOMOS cada vez mais caricaturas de nós mesmos. Alexander tem um olhar inseguro, sua voz é infantil e, decerto, autoestima não é o seu ponto forte. A qualquer momento sairá correndo procurando algum colo que lhe dê abrigo. Sua instabilidade emocional é visível e agora, risível no país inteiro. Seu comportamento é tão grotesco que suspeitam até que ele seja um fake, um personagem. Mas e quanto a nós? Quantas vezes somos ridículos, (nem tão endinheirados ou escrachados como Alexander, é bem verdade) tentando ate...

NO OUTUBRO ROSA, A VIDA NO VERMELHO...

Com o  início da campanha internacional Outubro Rosa, que promove a importância da prevenção do câncer de mama, vários posts hoje sinalizavam o evento. Devidamente conscientizada, lá fui eu para uma Unidade Básica de Saúde, no Guarujá, atrás de um dos meus direitos mais primordiais: o direito à saúde. Na primeira Unidade a reação das atendentes é de desconfiança: “Mamografia?” diz uma das moças depois que ela e a amiga se entreolham. “Sim, como eu faço, é aqui?” insisto e elas me indicam outro endereço, outra Unidade. Lá vou eu. Mais atendentes desconfiadas.  Afinal, o que há de errado com a minha pergunta? A moça do arquivo, apesar de ser a responsável pelo agendamento do retorno das consultas, “não sabe me dizer quanto tempo eu levaria até fazer o exame”. Limita-se a dizer que primeiro tenho que passar por um médico em qualquer Unidade Básica de Saúde. E é só. Antes de ir embora, vou até uma sala mais a frente e, finalmente, encontro um funcionário atencioso, disposto...

"ESTRANGEIRA"

   Contra o tempo, corro tentando colocar o corpo, a cabeça e a casa em ordem. Há sempre o hiato na volta porque já não sei exatamente de onde volto. Não me reconheço mais em meus pares, agora tão díspares e igualmente queridos, para sempre amados. Estrangeira onde quer que eu vá, sempre é aqui, em mim, que me encontro, cavucando  meus desencontros, amores, dissabores, alegrias e afins. O cotidiano bate à porta. Não abro, mas ele mete os dois pés na porta e entra. Por que uma empresa imagina aumentar a sua produtividade aumentando em uma hora diária a carga horária de trabalho? Por que a suspensão do carro está fazendo barulho? Por que o gato está tão magro? Por que essa planta murchou? Será que sentiu a minha falta? Bobagem! Nem pessoas estão murchando mais por saudade. Entre meus emails, procuro por aquele que “vai mudar a minha vida”. Eu sei, ele não existe. Provavelmente nunca chegará, mas o gostoso é a espera no portão. Rodo pelas redes sociais e por alguns ...

KEILISTA KARAÍVA - "Garota Estileira"

Quando eu cheguei aqui no Guarujá a sua família foi uma das primeiras que conheci. Curiosamente, você foi sempre a que tive menos contato. Notícias suas só tinha assim, an passant. Sempre voando. Uma hora no Sul, outra em Sampa, outra em Trancoso. Mas em janeiro, quando te levei algumas vezes para a radioterapia em Santos, nos aproximamos. Mesmo com a morte vigiando da esquina, falávamos de vida. Das nossas vidas. Amores, dissabores e planos (e você tinha tantos!): o restaurante, sua filha, um novo amor, talvez voltar a Trancoso, quem sabe? Quem saberia, pelo menos quem ousaria,  naquele momento, pensar na estupidez da inexorabilidade da morte, esse hiato sem fim, desmantelando todos esses planos? Não sei se atropelo o sujeito ali dizendo que “quem tem planos não morre” ou, sei lá, acredito que seja melhor pensar assim que, de fato, você não tenha morrido, mas se libertado daquele corpo doente que não combinava em nada, nada, contigo.  Uma mulher inquieta, ativa, irre...

Totens de Areia

Uma das primeiras lições que meu saudoso e sapiente pai me ensinou e eu, como aprendiz dedicada, captei rapidamente é: sempre questione as figuras dos mitos, heróis, salvadores da pátria e afins. A fé cega, sob qualquer aspecto, é campo fértil para os mitômanos, criaturas semelhantes a totens feitos de areia, que não resistem a vendavais constantes. Surgem assim, do nada, atendendo ao clamor de uma população vilipendiada, que esperando noite e dia por algo extraordinário que lhe tire do deserto da aflição, apega-se a qualquer miragem que apareça. Na Câmara  Municipal do Guarujá, o guardião da moralidade e dos bons costumes do momento se apresenta na figura do Presidente  que, num arroubo ético sem precedentes, apropriou-se do título de “o novo caçador de marajás”, e acabou com os super salários de alguns funcionários da Casa. Atitude louvável, sem dúvida, não fosse o fato desses super salários terem sido aprovados pelos vereadores, inclusive por ELE MESMO, no apagar das luze...

"Não tenha medo, vai chegar"

Segundo dados do IBGE, os idosos- pessoas com mais de 60 anos- já somam 23,5 milhões de brasileiros, e a tendência é que cheguemos a 2050 com esse número triplicado, ou seja, 64 milhões.   Apesar dos avanços na área médica, na indústria de remédios e na melhoria da alimentação garantirem a longevidade, não necessariamente garantem a tranquilidade merecida a quem chega nessa faixa etária.  Os problemas são muitos (acessibilidade, assistência médica, exclusão social) e alguns segmentos da sociedade ainda não estão adaptados para atender a demanda, tornando a inserção do idoso, com suas qualidades e limitações, um verdadeiro desafio.  Alguns empresários mais antenados saíram na frente e reconhecem na mão de obra do idoso um diferencial. Se por um lado não têm mais a agilidade de outrora, por outro, são mais atenciosos, concentrados e pontuais. Já existe um incremento de 70% de idosos no mercado de trabalho, segundo o superintendente do Ministério do Trabalho. ...