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Maré Cheia

Me dê espaços.  Transformo vazios em acontecimentos, Tormento em esquecimento. Danço fora do compasso, Saio pela tangente Conheço a "toda la gente", Viro, tropeço, e sigo em frente. Me dê espaços, Não se meta. Não me diga onde e nem quando. Apenas observe. Admire. Ou não. Mas me dê espaços E a certeza de saber pra onde voltar antes da maré cheia.

Ocaso.

Cortei, cortei o sim, o nó na garganta, cortei o que era plástico e se quebrou, o que era amargo e se acabou, Cortei o açucar, cortei você.  Cortei,  cortei o laço, o abraço, o umbigo, cortei o pão que o diabo amassou, cortei o inferno, o fogo, o fardo, cortei você. Cortei, cortei os fios, o cabelo, os brios, cortei na própria carne. Cortei a carapaça do amor, a carapuça da dor, cortei, cortei você. Cortei, as garras, as asas, suas, e voei.

Ódio-uma doença que merece atenção

 A cidade de Guarujá, no último dia 06/05/2014, foi palco de mais um dos vários casos de linchamento que vem ocorrendo sistematicamente em todo o Brasil. Fabiane de Jesus, 33 anos, foi linchada com requintes de crueldade por uma turba enfurecida que violou, no mínimo, dez artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, inclusive e, sobretudo, o Artigo 3º: “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”.       Não há ineditismo nesse caso quanto à perda de direitos básicos. Seus algozes, assim como a vítima, foram, e continuam sendo, privados de todos os direitos que deveriam ser pertinentes a qualquer cidadão brasileiro: direito à saúde, educação, moradia, segurança, direito à qualidade de vida. A descrença em um Estado omisso, para o qual essa parcela da população parece invisível, é reflexo das mazelas causadas pelo caos social facilmente perceptível nas comunidades carentes.       Mas apesar do contexto propíc...

"Discurso Inflamado. É grave, doutor?"

-E aí, doutor, é grave? -Bom, o discurso está inflamado e vamos ter que retirá-lo. -Retirar? Como assim, doutor, então é grave? -Calma! É mais comum do que você pensa. Hoje, eu diria até que existe  uma epidemia de discurso inflamado. Mas  o seu caso não é dos piores. Uma cirurgia simples e você estará livre do problema. -Mas, doutor, como o meu discurso inflamou desse jeito? Não entendo...cirurgia? -Ah, minha cara, a doença é  assim mesmo, progressiva. É como se a sua realidade não reconhecesse o seu discurso e o atacasse insistentemente fazendo com que ele inflame. É o que nós chamamos de doença autoimune, sabe? Mas não se preocupe! Já disse que a cirurgia é simples e que só há um pequeno risco de perda da capacidade oratória ou inaptidão para o debate. Mas para isso, logo depois da cirurgia, entraremos com doses diárias de autocrítica e vida normal. Apenas pedirei que se afaste por uns tempos, um ou dois meses, de coisas como happy hours, redes sociais, chats de g...

Mãe não é um ser etéreo. Acreditem!

Um beijo para TODOS que são mães. Um beijo pro pai que cria, pra vó que cria, pra tia, tio, pra madastra, enfim, pra quem dá atenção, carinho e cuidado. Beijo pra mãe sobrecarregada, pra mãe do dia-a-dia, pra mãe que não é santa, que não ca iu do céu e que "não exerce a função mais importante do mundo." Um beijo pra mãe que nunca soube o que é instinto materno, mas sim, o de sobrevivência, praquela que muitas vezes pensou em jogar tudo pro alto porque "isso também é de Deus", beijo pra mãe que não "sabe sempre o que fazer", praquela que não comprou a cartilha "Os Deveres de Mãe" ou "Como Satisfazer Seus Filhos Por Vinte e Quatro Horas", beijo praquela que tem desejo e vontade própria que, às vezes, falam mais alto que a "sagrada maternidade", beijo pra que erra, e muito, como todo ser menos especial, o "não mãe". Beijo praquela que acerta, independente da obrigação de acertar. Acertar? Beijo praquela que é passional,...

A felicidade é comezinha

Davi é meu filho caçula. Tem cinco anos, fala pelos cotovelos (ainda bem!) e tem aquela curiosidade voraz pelas coisas do mundo, que é inerente a idade. Hoje de manhã, enquanto eu fazia café, passou por mim na cozinha e disse: -Mãe, é NOJENTO uma moça namorando um velho? -Como assim, “nojento”, Davi? Qual o problema? -Ah, mãe, é estranho. -Estranho por quê? A moça não pode gostar do velho só porque ele é velho? -Ah, mãe, pode sim. É igual no conto de fadas, ela gosta do velho e a fada toca a varinha mágica nele e ele vira moço. -Não, Davi. Não é assim. Se a moça gostar mesmo dele, vai gostar dele de qualquer jeito, velho, novo, feio, bonito, não importa.  Pode ser nova gostando de velho, velha de velho, velha de novo, novo de nova, enfim, não tem problema nenhum. E se a mãe fosse casada com um homem mais velho, por exemplo?  Davi responde aflito: -Não, mãe. Você poderia pegar uma doença! -Davi, velhice não se pega. Velhice não é doença contagiosa. Olha só, q...

"O Rei da Cocada Preta"

Nesse final de semana, a revista Veja São Paulo imortalizou, o até então pouco conhecido, Alexander de Almeida. Num vídeo de quase quatro minutos, Alexander dá dez dicas “valiosas” de como tornar-se o “Rei do Camarote”. Entre outras pérolas, é preciso ter carrão, bebida que pisca, mulheres (as bonitas, claro!) e celebridades que, finalizando, agregariam “valor ao camarote”. Sim, eu assisti ao vídeo e, num primeiro momento, confesso que ri do patético que estamos NOS transformando. SOMOS cada vez mais caricaturas de nós mesmos. Alexander tem um olhar inseguro, sua voz é infantil e, decerto, autoestima não é o seu ponto forte. A qualquer momento sairá correndo procurando algum colo que lhe dê abrigo. Sua instabilidade emocional é visível e agora, risível no país inteiro. Seu comportamento é tão grotesco que suspeitam até que ele seja um fake, um personagem. Mas e quanto a nós? Quantas vezes somos ridículos, (nem tão endinheirados ou escrachados como Alexander, é bem verdade) tentando ate...