domingo, 12 de maio de 2013

"Minha mãe poderia, mas não falhou."


Ontem, enquanto participava de um curso sobre fiscalização do Poder Legislativo, ouvi o cientista político, prof. Humberto Dantas, dizer que no Brasil não existe o fomento, o incentivo às causas sociais dentro dos colégios, assim como na Alemanha. Fiz um retrospecto rápido da minha vida estudantil, procurando algo que pudesse contradizê-lo. Não encontrei nada relevante.  No colégio em que eu estudava, o trinômio de valores mais recorrentes eram os valores da mensalidade do colégio, do Country Club e da Cultura Inglesa.  

Mas se no colégio as causas não vieram da forma devida, em casa elas chegaram cedo.

Ela me apresentou  a Leonardo Boff, Dom Pedro Casaldaliga,  Paulo Evaristo Arns e ao Movimento Teologia da Libertação.  Aprendi que dentro da Igreja, havia coisas mais dolorosas do que se ajoelhar no momento da consagração.

Ela me mostrou que nem só de foundie e arremedo dos Alpes Suíços vive uma cidade, e fundou o primeiro partido político de esquerda, em um dos lugares mais elitistas da Região Serrana do Rio, numa época em que “ser de esquerda” era sinônimo de “gente estranha vestida de vermelho, comendo suflê de criancinha”.

Ela me trouxe a ONG Ser Mulher e me explicou que nem só de bombons e flores vivia o amor.   Que muitas mulheres sofriam com seus parceiros sob opressão, submissão, terror psicológico, violência física e que nada, nada disso, tinha a ver com amor.  

Com ela também aprendi noções de cidadania, do quanto é importante participar da vida política da cidade,  iterar-se,  comprometer-se com a causa certa, assim como ela se comprometia participando do Conselho Municipal de Saúde e da Rádio Comunitária, coisas que obviamente, ela com a sua consciência social aguçada também ajudou a criar, fundar, fortificar e frutificar.

Hoje, o que trago comigo são as lembranças da nossa participação (minha e do meu irmão) em todos esses processos pelos quais ela, a minha mãe, passou. Sempre fazia questão de nos participar o que estava acontecendo, quando não tinha a oportunidade de nos levar às reuniões e manifestações onde aprendíamos sobre diversidade, tolerância, ideais, objetivos e bem comum. Questões como: O que?, como?, onde? e por quê? sempre foram constantes nas nossas conversas em casa, enriquecendo a nossa formação, desenvolvendo o nosso senso crítico e apurando a nossa personalidade.

Sem dúvida, o colégio não tinha a obrigação de incutir valores na educação das crianças, mas poderia ter optado por fazê-lo de uma maneira mais efetiva, menos curricular, assim como fez a minha mãe que apesar de também não ter a obrigação, fez a escolha certa. Hoje, eu e meu irmão, com a convicção de que ela não falhou no seu propósito de formar cidadãos mais conscientes, agradecemos realizados. 

Beijo mãe, chego já!

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