sábado, 14 de abril de 2012

"Manga Encruada"

Apesar de morarem juntos há muitos anos, nunca se entenderam. Apenas se toleravam. O cérebro sempre se aproveitando da sua pretensa superioridade vivia subjugando o coração que tantas vezes se vira preterido, até mesmo espezinhado. Ela percebia a situação e sabia que mais cedo ou mais tarde, teria que dar um jeito nessa pendenga a não ser que quisesse ver um dia, por vias tortas, um levante daquele pequeno Davi que morava no seu peito.  Até porque já andava cansada de tanta contenção. De negar o desejo que lhe deixava a boca seca. Não é porque tinha se machucado uma vez que aconteceria de novo. E se acontecesse, ótimo! Desbancaria de vez a teoria de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Valeria a pena só pela contradição, só por ter tido a chance de tentar de novo e errar.  Ajeitou-se na cadeira e ficou assistindo a chegada dele. Forte (musculoso na medida certa, nem menos nem mais), braços torneados, perfeito para o que ela precisava naquele momento. Sem camisa feito menino criado solto, sentiu certa inveja daquela liberdade que sempre lhe fora negada ou que ela mesma não se permitira usar e ousar. Foi então que num ímpeto de coragem ela esqueceu o pudor e quase gritando disse:
     -Ôh, garoto?! Dá pra você subir aí nessa árvore e pegar uma manga pra mim? A “tia” até que subiria se não tivesse com a perna quebrada. É que eu fui tentar subir semana passada e...
    -Ah... vai dar não. Tô jogando bola! E depois, essa árvore é alta pra caramba... vou cair, né?!
    - Nossa, mas que coisinha ruim, hein?! Custa subir aí e pegar uma manga pra tia?
   -Pego nada! E você num é minha tia. E tira essa cadeira daí que tá atrapalhando o jogo!
Creeedo! Gente... cadê aqueles “garotos bonzinhos” de antigamente? Te contar, viu... MOLEQUE MEDROSO!! MOLEQUE MEDROOOSO?!
Também, quem disse que ela queria manga? Queria não... estavam verdes e ela tinha CERTEZA disso...                

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