Eram cinco horas da manhã e lá fora o sol tinha preguiça de nascer. Mas "preguiça" era uma palavra que ele não podia se dar ao luxo de pertencer ao seu dicionário. Enquanto Herbert Vianna nem pensava em cantar nas rádios, " A vida não é filme, você não entendeu. Ninguém foi ao seu quarto quando escureceu..." ele sabia exatamente o que isso significava na prática. Mais um dia de trabalho duro esperava por ele e seu irmão mais velho na feira. Dessa época, colecionava algumas histórias tristes como, por exemplo, a vez em que cortou a mão com um facão depois de uma tentativa frustrada de abrir um côco, e teve que trabalhar assim o dia inteiro até acabar o expediente e poder ser socorrido, ou ainda, a vez em que quase foi degolado por uma linha de pipa, só sendo salvo pelo olhar atencioso do irmão que o acudiu a tempo.
O mais curioso é que ele nunca se sentiu um derrotado, ao contrário, se sentia um privilegiado por poder ajudar em casa com tão pouca idade. Afinal, ele só tinha doze anos. E, se hoje era um advogado bem sucedido, não tinha o menor problema em afirmar que, a feira tinha sido uma de suas melhores escolas. Lá, entre batatas e cebolas, aprendeu a "vender seu peixe". Se tornou extrovertido. Começou a "entender de gente" e descobriu que teria que amadurecer cedo demais, "fora de época".
Foi na feira também que aprendeu a distinguir as classes socias. Querido pelas "madames", nunca se esquecia de separar alguma coisa para o pessoal da xepa. Seu pai era caminhoneiro, passava a maior parte do tempo fora e quando chegava, trazia uns caraminguás que mal davam para as despesas mas, mesmo assim, quando essas pessoas chegavam buscando os restos das barracas, ele se comovia. Se comovia e "sonhava menino", um dia poder fazer alguma coisa por aquela gente tão sofrida. E assim ia crescendo esse menino tão valente e determinado. Nada o desanimava. Nem mesmo quando através de uma de suas "freguesas madames", conseguiu um teste num banco famoso, passou e teve que se mudar de cidade com seus pais. A frustração foi tamanha, mas sabia que não tinha tempo para se comover mais do que o necessário. Não podia deixar que lhe impusessem a pobreza como uma sentença absoluta. Tinha pressa. E então, recomeçou de novo, do nada. Uma batalha por dia, até completar a maioridade, onde agora já trabalhava num hotel.
Hoje, ele tem um escritório de advocacia e suas batalhas são diferentes. Não menos intensas, é bem verdade. Mas a sua fome é outra. A sua sede é de justiça. Seu sonho é por uma sociedade mais igualitária. Traz consigo a essência, a alma de lutador da época de menino sonhador. De repente liga o rádio e se desliga do mundo. Renato Russo canta agora, "Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar num sonho que se tem. Ou que seus planos nunca vão dar certo, ou que você nunca vai ser alguém." Ali, naquele momento, a vida parecia lhe sorrir de soslaio. E ele, sozinho, sorri de volta agradecido e retorna ao trabalho...
Bela e comovente crônica.
ResponderExcluirAcho que eu conheço esse menino feirante..ele também é sagaz...rs
ResponderExcluirUau! Obrigada Zatônio! Um elogio vindo de você, não é um elogio, é um conceito! Valeu, "mestre"! rsrs
ResponderExcluirAcho que eu conheço esse "anônimo". E não é que sagacidade é tudo?! "Habemus papam!" rsrsrs
Clara Gurgel
Nossa. Sua crônica me remeteu, diretamente, a um amigo meu. A história não é tão igual, mas essa sede de justiça e de ajudar ao outro é idêntica.
ResponderExcluirCoisa linda, Clarinha!
Obrigada, Glorinha!! Essas histórias de superação estão sempre nos rodeando mesmo. São mais comuns do que a gente possa imaginar. Beijo, queridona!!! Clara
ResponderExcluirHistória que presenciei e vivi em parte dela....me fez lebrar a frase abaixo: "Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze. "
ResponderExcluirGraciliano Ramos - Memórias do Cárcere
Clara....Ouso dizer que o menino deve estar MUITO FELIZ.....com belíssima homenagem
ResponderExcluirAnônimo(01). Acho que toda essa vivência só ajuda a enriquecer o mosaico de que é feita a nossa personalidade. Muita simetria não acrescenta, ao contrário, atrapalha...
ResponderExcluirJá que vc citou Graciliano, peço licença para citar Guimarães Rosa. Li outro dia e acho que diz muito sobre esse menino...
"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem..."
Obrigada pela visita! Clara!
Anônimo(02). Jura? Se for assim, objetivo alcançado, então! Obrigada! Clara!
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